D. AFONSO HENRIQUES: Irmão Confrade da Ordem dos Pobres Cavaleiros do Templo de Salomão *
Por Filipe Miguel Dias Cardoso
* Este artigo foi escrito em Janeiro-Maio de 2004 e integrou o primeiro número impresso da Revista URGRUND no Janus Caeli de 2005, há data eram inexistentes: quer uma credível biografia do Rei, como a que surgiu em Julho de 2007, por José Mattoso [D.Afonso Henriques, Colecção de Biografias ‘Reis de Portugal’ (Coord. Roberto Carneiro), Temas e Debates.]; quer qualquer título que estabelecesse idêntica relação, como foi o caso do romance histórico de [ ] .
figura de D. Afonso Henriques, primeiro Rei de Portugal, fundador da nossa nacionalidade, sempre nos fascinou. O facto da Nação ter prestado, ao longo dos nove séculos da sua existência tão pouco cuidado a tão grandioso vulto, traz-nos intrigados. Não nos referimos a homenagem vãs ou a referências patrioteiras mas ao justo reconhecimento e perpetuação da acção deste nosso Rex.
Nas artes plásticas não há obra que consideremos à sua altura, mesmo a tão recorrente escultura de Soares dos Reis, patente em Guimarães, não lhe faz jus; nas artes de palco e do espectáculo nada; na música idem. Na literatura, temos referências em capítulos da História de Portugal, contudo de visão positivista e materialista excessivamente redutoras do seu papel. Queremos contudo deixar homenagem às referências grandes nos Lusíadas – épico da história portuguesa, e na Mensagem – épico da mística histórica portuguesa; às minguas crónicas históricas que nos chegam: Chronica Gothorum (Crónica dos Godos); Chronica del Rey D. Affonso Henriques de Duarte Galvão 1; Crónica do Conde D. Henrique, D. Teresa e Infante D. Afonso e Monarchia Lusitana de frei António Brandão 2; às actas dos louváveis Congressos Históricos de Guimarães; e a algumas (poucas) monografias sobre o tema ou que o afloram e que nos serviram de precioso apoio.
Aquele que foi escolhido divinamente para empreender Portugal, não se impondo, mas sendo aceite pelos seus pares provadamente por astúcia, inteligência, força de guerreiro e exemplo de acção, encabeçou aquilo a que a sua gente encarou como um projecto nacional, hoje longe de estar alcançado.
Seria impensável levar a cabo um exaustivo estudo sobre esmagadora figura, o que pretendemos é, tão só, abordar sob um certo ponto de vista e ajudando à discussão, trazer D. Afonso Henriques ao pensamento de todos. A abordagem seguida afigurou-se-nos numa primeira instância polémica, mais tarde já no decurso da investigação feita e a meio da elaboração do presente texto encontramos referência ipsis verbis à nossa ‘ideia-força’ peremptoriamente expresse por António Quadros 3 (o que nos espantou e incentivou) e ainda outras pistas apresentadas por outros autores, discutidas na última parte deste escrito.
A hipótese aqui debatida: Foi Dom Afonso Henriques um Templário? ; não pretende ser redutora nem sectarista, mas sim apenas uma relação lógica entre um cavaleiro e uma Ordem religioso-militar com metas comuns.
Deixamos como nota prévia que, se com este texto não atingirmos o objectivo declarado de contrariar o alheamento da História e da Memória para com o primeiro Rei da Nação Portuguesa, então será melhor ignorá-lo.
Traços do Varão
Dom Afonso Henriques, Portugalensium Rex (Rei dos Portugueses), nasceu em 1109 na melhor das hipóteses 4, entre 1106-1110 segundo outros 5, ou em 1111 data geralmente mais consensual entre autores 6. O seu local de nascimento também permanece alvo de debates, sendo a discussão feita entre Guimarães (onde é baptizado na Capela de S. Miguel, segundo a tradição), Coimbra7 ou Viseu 8. Se o intervalo de erro do seu nascimento nos parece desprezável, já o local nos levaria a tentativas estéreis de rigor, o que será de salientar é que nasceu em terras do então Condado Portucalense núcleo primordial gerador de Portugal, i.e., Dom Afonso nasceu português.
Quando à figura e à obra: “… foi um homem valente na guerra, versado na língua, muito prudente nas suas acções, de inteligência esclarecida, (…) muito benévolo e devoto, defendeu Portugal inteiro com sua espada, alcançou o trono e, como senhor; dilatou as fronteiras dos cristãos e alargou os territórios…”, assim reza a Chronica Gothorum 9, diferente entendimento parece ter tido Oliveira Martins10 que, em fins do séc. XIX, o apelidou de: “… bandido, à imitação de Pelaio.”, e de “… medíocre, tenaz, brutal e pérfido…”. Numa visão contagiada pela ‘modernidade’ este autor pretende à luz da ‘verdade positivista’ transmitir uma avaliação distorcida da realidade contemporânea a D. Afonso, erro não raras vezes cometido cada vez mais na nossa historiografia.
Mas quem poderá assim falar tão indignadamente de tão ilustre varão?! É certamente alguém que não interiorizou (nem se esforçou por tal) o sentido mais nobre de pela espada desbravar o caminho mais alto. Ao desenvolver um raciocínio onde “Um salteador é, não raro, um verdadeiro herói: a perfídia é uma virtude, a crueldade é um título de glória…”, parte de má fé, contudo conclui (bem, o que nos causa espanto) “… o espírito colectivo substituí o critério moral e abstracto pelo critério histórico…”. Apesar de seguir por caminhos pretensamente morais chega ao cerne da questão, que é: a consciência amaterial e simbólica dos povos produz uma mobilização colectiva capaz de afirmações concretas (que semelhantes pensadores nunca poderão entender, condicionados que estão).
Ao longo do seu reinado, o primeiro e mais longo período de governação em Portugal 11, esta figura imponente e com uma saúde de ferro, possuidora de uma autoridade natural, nunca teve que enfrentar revoltas quer da nobreza, clero ou povo. Considerou S. Miguel o seu arcanjo protector e foi amigo de S. Teotónio, Santo místico português. Militarmente sofre, porventura apenas uma pesada derrota em Badajoz (1169) 12, naquele que terá sido o seu único erro estratégico. Grande político e administrador, mostrou-se sempre sábio quer quando assegurou a liberdade dos muçulmanos das cidades recém conquistadas (Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer do Sal) através de Carta de Segurança e Privilégios (1170), quer quando propôs tréguas antes das conquistas, ou ainda aquando da Paz de Tuy (1137) ou do Tratado de Zamora (1143). O seu nome, a quem os mouros chamavam Ibn-Errik, impunha-lhes respeito. Também a aparente contradição da convivência das três matrizes religiosas e culturais presentes na fundação de Portugal: cristã, islâmica e hebraica; marcam o seu reinado 13.
A cultura oficial e dominante de cariz cristão, a tolerância para com a influente cultura islâmica e o dinamismo judaico 14, conviveram bem na sua época, o que demonstra uma visão esclarecida, que bem podia ser seguida pelas gerações actuais. Ao invés do dominante establishment, que impõe uma ‘cultura vazia’, apenas com fins economicistas, produzindo uma Globalização que tem originado a opressão e a ‘guetização’ de grandes minorias, que respondem por sua vez com o recurso lamentável à violência, como é o caso do terrorismo.
As grandes obras, por si feitas, foram o alargamento do território – Conquistador, e a afirmação de Portugal como Estado independente e autónomo – Fundador.
Morre a 06 de Dezembro de 1185 em Coimbra, onde repousa 15junto à sua única legítima mulher, a Rainha D. Mafalda de Sabóia 16. D. Sancho, seu filho, prosseguiu a execução do programa delineado – concluir a reconquista, incluindo o Al-Gharb; e solidificar a nova Nação.
Um Borgonha no Condado Portucalense
D. Afonso era filho de D. Henrique e de Dona Teresa, fruto da ligação da mais alta aristocracia da época. Ora, se de sua mãe herda a linha genealógica dos monarcas Leoneses e o nome próprio de seu avó 17, por sua vez do lado paternal herda o sobrenome 18, mas também sobretudo sangue borgonhês nobre, casta de elite de um certo movimento cultural, espiritual e teosófico que marcará o séc. XII europeu e terá Portugal como palco de aplicação prática.
A criação do Condado Portucalense, separado do da Galiza, por Afonso VI ‘O Bravo’, estabelece-se com a concessão destes territórios (do Minho ao Mondego) a D. Henrique e D. Teresa, a título de donatio (dote) no casamento de ambos, em 1095 19, com domínio hereditário 20. Dá-se, portanto, uma divisão administrativa como derradeiro acto histórico jamais emendado 21, de separação definitiva da terra dos “Bracarenses, parte da Galiza que vai do Minho ao Douro e toda a zona designada de Portugal que ia do Douro até Coimbra, com liberdade de a (toda a Lusitânia) reconquistar pelas armas.” 22
D. Henrique, valente guerreiro e estratego, governa bem, estimula o comércio e assegura para o Imperador Leonês a lealdade dos senhores. De início dependente do Conde da Galiza Dom Raimundo, seu primo, rapidamente assumindo-se como Comes (Conde) autónomo. Surge cedo como Senhor de Coimbra (Dez. 1095) e de Braga (Abril 1096). São do ano de 1096 os seus primeiros actos de administração (foral de Guimarães e de Constantim de Panóias), e em 9 de Dezembro de 1097 intitula-se “Comes Portugalensis” afirmando que “Ommis Portugalensis” está em seu “dominio et diccione” 23.
A vinda de D. Henrique, do seu primo D. Raimundo, e outros Cavaleiros da Borgonha, para prestar auxílio a Afonso VI na reconquista cristã, tinha sido negociada pelo Imperador com o Abade borgonhês Hugo de Cluny, onde este último combina o casamento de D. Raimundo com a sua filha, a Princesa D. Urraca. Começando-se assim um intercâmbio estreito com esta região que, não sendo sequer um reino forte, detinha as condições ideais à germinação de uma certa corrente de pensamento que, nos séculos posteriores, dominaria na Europa.
A Região da Borgonha deve o seu nome aos Burgundii (Borgonheses) 24, povo germânico, estabelecido no séc. IV nas margens do Reno, batido pelos Hunos em 437. Aliados dos Romanos e instalados na bacia do Ródano (sul de França), foram submetidos pelos Francos (Merovíngios) em 534, mantendo sempre contudo uma forte identidade. Em 870, Bosom, esposo duma Corolíngia, faz-se proclamar Rei da Borgonha Meridional e da Provença, em 888 o Guelfo Rodolfo I faz-se Rei da Borgonha Setentrional (Jurana), os dois reinos são reunidos por Rodolfo II em 933, e em 1033 o ‘Imperador do Ocidente’ Conrado II (primo de Rodolfo III) coroa-se Rei da Borgonha. Desde então a Borgonha esteve unida à Germânia, sendo depois absorvida lentamente pela França. 25
A origem aristocrática borgonhesa do nosso primeiro rei, será aquilo que julgamos ter sido o mais decisivo para a sua formação pessoal e orientação politico-filosófica, e consequentemente para o projecto e formação da Nação portuguesa.
Verifica-se que seu pai D. Henrique (sobrinho-neto do Abade D. Hugo da Ordem mais importante na época – a de Cluny, quarto filho de Henrique, neto do Duque Roberto, bisneto de Roberto I da França, irmão dos Duques Hugo e Eudes de Borgonha, primo de D. Raimundo, por sua vez filho de Guilherme I Conde da Borgonha) permite a implantação de uma visão religiosa obediente a Cluny que dará, no futuro, apoio político e religioso a D. Afonso, que juntamente com o auxílio dos Templários ajudará à definição do território nacional. Como nos diz António Quadros, em Portugal, Razão e Mistério: “A independência portuguesa é pois marcada e qualificada pela convergência da super-estrutura borgonhesa-lusitana e do espírito cristão, segundo o ideal Cisterciense e Templário, sob o magistério de S. Bernardo.” 26
Salientemos que, da Borgonha do séc. XI e XII surgem alguns homens fortes: o referido Abade S. Hugo, homem forte do séc. XI; S. Bernardo de Claraval, o Doutor da Igreja mais influente do séc. XII; e Hugues de Payens, fundador da Ordem dos Templários (1118). Das suas visões e dos seus projectos irá Portugal beneficiar, graças à forte ligação verificada, como procuramos demonstrar neste artigo.
(ver notas)
1 Duarte Galvão (n. em Évora, 1435-1517).
2 Frei António Brandão (n. em Alcobaça, 1584-1637); monge cisterciense de Alcobaça, sucedeu a D. Manuel de Meneses no cargo de Cronista-mor, continuou a obra Monarchia Lusitana de frei Bernardo de Brito (1569-1617), escrevendo a 3ª e 4ª parte, que abrange o período desde o Conde D. Henrique até ao fim do reinado de D. Afonso III, com 1ª publicação em 1632.
3 António Quadros. Portugal, Razão e Mistério, Vol. I.
4 Oliveira Marques. História de Portugal, Vol. I, p. 64.
José Mattoso. A primeira tarde portuguesa in Portugal Medieval novas interpretações, p. 20, nota 26.
Torquato Sousa Soares. Afonso I, in Dicionário da História de Portugal, Vol. I, p. 36.
5 Destacando frei António Brandão. Crónica do Conde D. Henrique, D. Teresa e Infante D. Afonso, p. 121-126.
6 Alexandre Herculano. História de Portugal, Tomo I, p. 640/641, nota 21. E a maioria das monografias consultadas.
7 Torquato Sousa Soares. Obra cit., Idem.
8 A. de Almeida Fernandes. Viseu, Agosto de 1109: nasce D. Afonso Henriques, in Beira Alta. Assembleia Distrital de Viseu, Vol. XLIX, p. 227 e 232.
9 In frei António Brandão, Obra cit., p. 263-273.
10 Oliveira Martins. História de Portugal, p. 67 e 76.
11 57 anos, considerados a partir dos primeiros actos de governação, ainda no Condado Portucalense, logo após a vitória na Batalha de S. Mamede (1128).
12 Contra uma aliança entre o Islam e os Leoneses.
13 E marcaram até ao reinado de D. João III, altura em que se impôs a corrente de fé única.
14 São paradigmáticos os casos de Aben-Yaich, Iáhia, chefe da comunidade judaica, sabe-se que D. Afonso o nomeou Cavaleiro-mor em recompensa pelos serviços prestados; e a existência de uma Sinagoga, até pelo menos ao séc. XVI, em Tomar, importante centro Templário.
15 Em mausoléu na Capela-mor da Igreja de Santa Cruz de Coimbra, construído durante o reinado de D.Manuel I (1495-1521).
16 D. Mafalda de Sabóia, morre em 1157 em consequência do nascimento do seu 7º filho – D. Sancha. Era “…filha do Conde D. Anrique de Lara, e há elle aprouvelhe muito cazar com elle por estes respeytos, primeyramente por há Caza de Lara ser avida, por há mais alta linhagem Despanha, esso mesmo porque em toda a Espanha, nom avia molher nhuma de linhagem de Reys há que elle nom fosse muy cheguado em parentesquo, tambem por ella ser fermosa, e dotada de muitas virtudes, e bondades…” [Duarte Galvão. Chronica delRey D. Affonso Henriques, Cap. XXII, p. 30].
Casa de Lara do Condado de Sabóia, na época Condado autónomo como o de Barcelona, Flandres ou Borgonha, terra entre a França e a Itália.
17 Afonso VI (1040-1109), Imperador Leonês ‘Imperator super omnes Spaniae nationes’ e ‘Totius Hispaniæ Imperator’, Senhor de toda a Hispania Cristã, reúne Leão, Castela e a Galiza. Conquistador de Toledo (1085), Valência e Saragoça, ocupa Santarém e Lisboa (1094), recuando até ao Mondego em 1095.
18 Henriques (= filho de Henrique).
19 Ano de 1096 é a opinião de Diogo Freitas do Amaral. D. Afonso Henriques, Biografia, p. 13.
20 Direito hereditário, segundo o cronista anónimo de Afonso Raimundes, cit. por Eduardo Amarante. Templários de Milícia Cristã a Sociedade Secreta, Vol. IV, tomo 1, p. 16/17.
21 Quanto ao tema, da separação da Galiza, faremos mais tarde outra referência. Facto e ideias gostaríamos de ver mais discutido [Ver nota 79 na Parte III deste artigo].
22 Segundo André de Resende, cit. por Eduardo Amarante, Obra cit., p. 15.
23 Eduardo Amarante. Obra cit., p. 17, nota 2.
24 Segundo Rainer Daehnhardt: “Os Burgundii- Burgundiones- Burgundos- Burguinhões ou Borgonheses são um povo germânico oriundo da costa do Báltico; eram Celtas e tinham Sacerdotes druidas. Pouco se diferenciavam dos Suevos, Godos e Vândalos com os quais coabitavam em espaço germânico de III a.C. a IV d.C. No séc. V migraram para junto do Reno.” [Rainer Daehnhardt. Páginas Secretas da História de Portugal, Vol. I, p. 43/44].
25 Por todo: entradas Borgonha, Condado da Borgonha e Burgúndios in Dicionário Prático Ilustrado. Lello & Irmão Ed.
26António Quadros. Obra cit., p. 176.









