Tuesday, January 16, 2007

TRATADO CONSTITUCIONAL EUROPEU (Cap. V)

V. Vários autores são da opinião que a União Europeia se fechou sobre si própria e que na ausência de projectos políticos, produziu um documento que pretende ser muito mais do que, na realidade é. Entre eles encontra-se Ralf Dahrendorrf (8) que aponta assuntos mais importantes por resolver, como a consolidação do mercado único e a correcção de atrasos e incompatibilidades existentes nas fronteiras da União agora alargada, na Europa de Leste e nos Balcãs. (9)
 
Dahrendorrf defende que aqueles que acreditam na verdadeira Europa devem: baixar a fasquia; e dar mais relevo à ‘Europa real’, resumindo afirma: “…a ordem do dia deveria ser menos preocupação abstracta sobre a identidade europeia e mais acções concretas para defini-la em actos e não em símbolos”. (10)
Se quanto à primeira saída (“…baixar a fasquia”) nos parece revelar falta de coragem e verdadeiro empenho na construção europeia, aliás em conformidade com a habitual posição britânica. À segunda saída opomos o nosso pensamento, pois embora com sentido pragmático, consideramos importante a prática e os factos concretos, estes não podem contudo anular os símbolos.
Nós que somos da Tradição (11) acreditamos numa dupla acção humana – Exotérica (no plano temporal e material) mas também, e sobretudo Esotérica (no plano interno, das causas profundas e secretas), procuramos interpretar as metas mais nobres do Homem e consideramos a leitura dos símbolos do passado importantes, bem como uma cuidada perpetuação destes para o futuro. Por isso, é partindo dos símbolos que sabemos quem somos, e construímos melhor o futuro, através das acções concretas.
Este é o debate que pensamos estar a ser feito, e bem porque à Europa fazem falta os símbolos, pela razão simples de que estes sempre fizeram parte dela, e são o que na sua profunda identidade a definem. Considerá-los numa constituição é o caminho correcto.
Também, não deveremos pôr o material e o económico à frente de qualquer outra questão de fundo. Esta prática tem ‘epidemizado’ a construção europeia, e até agora os resultados não têm sido bons. Mais ainda com o recente alargamento a dez novos Estados, correremos o risco de nos diluir num vasto mercado económico.
Deve-se dar lugar ao primado do Político, só assim, elevando as discussões e os discursos, se dará grandeza à Europa e se abrirá um caminho novo no horizonte individual de cada europeu.


 

(8) Ralf Dahrendorrf, Membro da Câmara dos Lordes britânica, foi reitor da London School of Economics e director do St. Anthony’s College, em Oxford.
(9) Ver artigo Jornal Público, p.10, de 17.07.2004, exclusivo Público/Project Syndicate/Institute for Human Sciences.
(10) Ralf Dahrendorrf, art. citado.
(11) O Pensamento Tradicional baseia-se na unidade transcendental do universo e faz uma leitura deste, do Homem e dos tempos tendo como valores o sagrado, a ordem e a hierarquia natural das coisas.

 

Posted by URGRUND in 14:30:04
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