APROXIMAÇÃO NÃO MONÓTONA A ‘O PASSO DA FLORESTA’ DE ERNST JÜNGER: UMA ESTRATÉGIA DE ACÇÃO CONSERVADORA
A obra de Jünger Der Waldgang [1] situa-se na procura incessante da resistência e de caminhos que conduzam à liberdade Humana, vejamos:
‘O passo da Floresta’ é o ensaio obrigatório e fundador para todos os que querem penetrar no pensamento de Jünger. É onde se esclarece o problema e se indica uma estratégia para o debelar, mas avisando-se que o caminho é difícil, duro, tumultuoso e possivelmente mortal. Trata-se de um caminho de cada Ser Humano individualmente. De sentir o ‘chamamento e partir para a floresta’ por passos lentos mas sólidos, como são sempre os de um verdadeiro Homem Livre…
Ao leitor é esperada uma disponibilidade total, mente aberta e inconformista, mas que seja livre no seu arbítrio e solitário na sua caminhada.
Podemos, para uma mais fácil organização de ideias, encarar Der Waldgang como uma obra em três andamentos:
No 1º Andamento (Cp. 1-7) são identificadas as questões do nosso tempo – o «Aqui e Agora», que nos são dirigidas constantemente. Constata-se a imposição do «Isto e Aquilo», da limitação da liberdade e de dizer Não, e do risco de um entre cem indivíduos o fazer.
No 2º Andamento (Cp. 8-25) surge a figura do Desterrado, aquele que adopta um Caminho e decide lutar pela sua liberdade e independência e dá ‘O passo da floresta’. Fá-lo numa época de catástrofes onde mesmo em minoria os Homens podem ser poderosos, porque se encontram a si próprios na sua essência indivisível e indestrutível.
Passando dos sistemas racionalistas e materiais, i.e. do Deserto, através do processo de purificação na floresta, dá-se os últimos passos, e ultrapassando a ‘linha do meridiano zero’ chega-se a uma Nova Ordem, ultrapassando um movimento espiritual niilista. Neste 3º Andamento (Cp. 26-34) o Desterrado decide pela sua consciência e não de acordo com doutrinas, mas respeitando as leis, identificando-se com uma Estratégia Conservadora. A sua busca torna-o invulnerável e nele nasce a resposta para as questões do mundo.
1º Andamento – «Aqui e Agora»; Aproximação ao problema
Logo na abertura Jünger avisa que estamos perante um problema complexo e que a ele nos iremos aproximar por uma nova abordagem e pela formulação de um modelo inovador. A interpretação, resolução e solução final do exercício será efectuada descontinuamente no tempo, individualmente, sem truques ou atalhos. Todo o percurso será fruto de uma dinâmica com um movimento muito significativo, resultante de uma energia nova e poderosa.“O passo da Floresta – atrás deste título não se esconde qualquer idílio. O leitor deve, antes, apreendê-lo como um excurso grave, que excede não só os atalhos já abertos, como também os limites da contemplação.” [2]
A formulação do problema e a análise das condições existentes é o primeiro passo, mas antes devemos ter em conta uma premissa: a de que são vários os problemas do Homem. Vários e mutáveis na essência, e contudo sempre presentes. O que se verifica é que quando somos chamados a responder não é suposto que tenhamos de facto algo a dizer e mesmo que tenhamos é dado valor nulo ao nosso contributo. Jünger chama o leitor ao problema de uma forma surpreendente dando o ‘exemplo da eleição’; ironicamente a conquista máxima do Homem e o pilar fundamental da Democracia.
Sabendo que geralmente se criam as condições para umas eleições justas, conscientes e imparciais e que o que conta é a ‘cifra final’, o que é que se passa e acontece com aquela figura que quer votar em minoria no Não? Sendo que as eleições se converteram em plebiscitos, mantendo a ilusão da liberdade de escolha, tratam-se de uma encenação, onde uma vez dissonante, uma voz é isolada e aniquilada, embora servindo para dar expressão à restante maioria apoiante do Estado, que se alimenta assim do Medo e do Terror dos indivíduos.
O Homem que cai nesta armadilha fá-lo porque está disposto a sacrificar-se pela sua opinião, pela liberdade. Encarando que se tratará de uma ínfima parte daqueles que querendo votar Não, não se abstiveram, nem se deixaram dominar pelo terror, serão apesar disso muito significativos. O que surge deste Não é a última possibilidade de expressão, é a negação do Deserto, da Dúvida, é o Desespero, e também o Desterro!
“Enfrentamo-nos aqui com uma verdadeira resistência, sem dúvida uma resistência que não conhece ainda a sua força, nem o modo como se há-de exercer.” [3]
2º Andamento – O Desterro; Resistir para nascer de novo
3º Andamento – A Nova Ordem
“O veredicto do Desterrado reza assim: «Aqui e agora» – ele é o homem da acção livre e independente.” [12] Aquele que não se satisfaz facilmente, que é inconformista e que busca sempre mais, aquele que trás consigo uma profunda inquietação, aquele que reconhece o seu grande sofrimento, aquele que duvida e que sofre, está agora à altura de responder ao Nada. Porque sabe que a questão fundamental a si feita é endereçada à sua substância. Só ele pode agora dominar o Tempo e expulsar o Nada. A pequena massa de elite assume o compromisso da luta, com todas as suas consequências, sabe que do inimigo não terá qualquer tipo de complacência. A decisão é firme e forte, e isto requere coragem. A Estratégia Conservadora de Jünger assenta na passagem do ‘meridiano zero’, ultrapassando os sistemas racionalistas e materialistas, implantando-se uma Nova Ordem. O Desterrado deve ser audaz, não aceitar a lei dos poderosos, mas sim defender-se pelos meios do seu tempo, não se limitando apenas a alvos reais, abre caminhos mais altos em épocas e colectividades futuras e não se fica apenas pela conquista do seu reino de interioridade. Só ao Desterrado cabe a balização dos limites da sua luta, não recorrerá a actos criminosos ou terroristas, age sim de forma ética, não por respeito às leis do Estado, mas sim pelo seu profundo respeito pelo que existe de mais nobre no Ser Humano. Esta ‘Revolução’ é universal em solo, em língua, em cultura, em tempo. A sua arma será a resistência, a paciência, a audácia, a liberdade, a pureza do Ser Humano. Dois valores são sagrados: a liberdade individual; e a propriedade, que em circunstância alguma será colectivizável. A sabedoria está no indivíduo e não na colectividade. A batalha é travada no ‘mundo das coisas’, mas é no ‘mundo da linguagem’ que está a força desta elite. O ‘lugar da palavra é a floresta’, é lá que o Desterrado se alia e se funde ao pensador, ao teólogo e ao poeta. É por e com esta nova linguagem que se sai do deserto. “No seu fundo primordial, a palavra já não é forma nem chave. Torna-se idêntica ao Ser. Torna-se poder da criação. E aí está a sua força imensa, que nunca se poderá converter em moeda. Aqui apenas têm lugar aproximações. A linguagem tece em favor do silêncio, como o oásis se consagra a uma fonte. E a poesia confirma que se conseguiu entrar nos jardins intemporais. Disso vive então o Tempo.” [13] Porque, termina Jünger no parágrafo seguinte: “Quem escava mais fundo, alcança em qualquer deserto a camada que conduz às fontes. E com a água sobe à superfície uma nova fertilidade.”
Filipe Miguel Dias Cardoso
Penafiel / Zürich
Outubro de 2004 - Maio de 2005
[1] Devido ao nosso não domínio da língua germânica socorremo-nos da seguinte edição portuguesa para as citações neste artigo: Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang) [1951], Cotovia, Lisboa, 1995. Com tradução e posfácio de Maria Filomena Molder [ISBN 972-8028-53-9]. [2] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 9.
[3] Ernst Jünger. Obra cit., p. 19. [4] Idem. Idem, p. 24.
[5] Idem. Idem, p. 38. [6] O leitor pode aperceber-se com mais profundidade desta figura na obra de Ernst Jünger. Der Arbeiter. Herrshaft und Gestalt [1932], com uma excelente tradução para a língua portuguesa de Alexandre Franco de Sá, editada pela Hugin (2000), com um esclarecedor prefácio de Nuno Rogeiro [ISBN: 972-8310-78-1] [7] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 28.
[8] Idem. Idem, p. 32. [9] Idem. Idem, p. 23. [10] Idem. Idem, p. 44/45. [11] Idem. Idem, p. 52. [12] Idem. Idem, p. 68. [13] Idem. Idem, p. 97.