Thursday, February 22, 2007

APROXIMAÇÃO NÃO MONÓTONA A ‘O PASSO DA FLORESTA’ DE ERNST JÜNGER: UMA ESTRATÉGIA DE ACÇÃO CONSERVADORA


A obra de Jünger Der Waldgang [1] situa-se na procura incessante da resistência e de caminhos que conduzam à liberdade Humana, vejamos:
‘O passo da Floresta’ é o ensaio obrigatório e fundador para todos os que querem penetrar no pensamento de Jünger. É onde se esclarece o problema e se indica uma estratégia para o debelar, mas avisando-se que o caminho é difícil, duro, tumultuoso e possivelmente mortal. Trata-se de um caminho de cada Ser Humano individualmente. De sentir o ‘chamamento e partir para a floresta’ por passos lentos mas sólidos, como são sempre os de um verdadeiro Homem Livre…
Ao leitor é esperada uma disponibilidade total, mente aberta e inconformista, mas que seja livre no seu arbítrio e solitário na sua caminhada.
Podemos, para uma mais fácil organização de ideias, encarar Der Waldgang como uma obra em três andamentos:
No 1º Andamento (Cp. 1-7) são identificadas as questões do nosso tempo – o «Aqui e Agora», que nos são dirigidas constantemente. Constata-se a imposição do «Isto e Aquilo», da limitação da liberdade e de dizer Não, e do risco de um entre cem indivíduos o fazer.
No 2º Andamento (Cp. 8-25) surge a figura do Desterrado, aquele que adopta um Caminho e decide lutar pela sua liberdade e independência e dá ‘O passo da floresta’. Fá-lo numa época de catástrofes onde mesmo em minoria os Homens podem ser poderosos, porque se encontram a si próprios na sua essência indivisível e indestrutível.
Passando dos sistemas racionalistas e materiais, i.e. do Deserto, através do processo de purificação na floresta, dá-se os últimos passos, e ultrapassando a ‘linha do meridiano zero’ chega-se a uma Nova Ordem, ultrapassando um movimento espiritual niilista. Neste 3º Andamento (Cp. 26-34) o Desterrado decide pela sua consciência e não de acordo com doutrinas, mas respeitando as leis, identificando-se com uma Estratégia Conservadora. A sua busca torna-o invulnerável e nele nasce a resposta para as questões do mundo.

1º Andamento – «Aqui e Agora»; Aproximação ao problema

Logo na abertura Jünger avisa que estamos perante um problema complexo e que a ele nos iremos aproximar por uma nova abordagem e pela formulação de um modelo inovador. A interpretação, resolução e solução final do exercício será efectuada descontinuamente no tempo, individualmente, sem truques ou atalhos. Todo o percurso será fruto de uma dinâmica com um movimento muito significativo, resultante de uma energia nova e poderosa.
“O passo da Floresta – atrás deste título não se esconde qualquer idílio. O leitor deve, antes, apreendê-lo como um excurso grave, que excede não só os atalhos já abertos, como também os limites da contemplação.” [2]
A formulação do problema e a análise das condições existentes é o primeiro passo, mas antes devemos ter em conta uma premissa: a de que são vários os problemas do Homem. Vários e mutáveis na essência, e contudo sempre presentes. O que se verifica é que quando somos chamados a responder não é suposto que tenhamos de facto algo a dizer e mesmo que tenhamos é dado valor nulo ao nosso contributo. Jünger chama o leitor ao problema de uma forma surpreendente dando o ‘exemplo da eleição’; ironicamente a conquista máxima do Homem e o pilar fundamental da Democracia.
Sabendo que geralmente se criam as condições para umas eleições justas, conscientes e imparciais e que o que conta é a ‘cifra final’, o que é que se passa e acontece com aquela figura que quer votar em minoria no Não? Sendo que as eleições se converteram em plebiscitos, mantendo a ilusão da liberdade de escolha, tratam-se de uma encenação, onde uma vez dissonante, uma voz é isolada e aniquilada, embora servindo para dar expressão à restante maioria apoiante do Estado, que se alimenta assim do Medo e do Terror dos indivíduos.
O Homem que cai nesta armadilha fá-lo porque está disposto a sacrificar-se pela sua opinião, pela liberdade. Encarando que se tratará de uma ínfima parte daqueles que querendo votar Não, não se abstiveram, nem se deixaram dominar pelo terror, serão apesar disso muito significativos. O que surge deste Não é a última possibilidade de expressão, é a negação do Deserto, da Dúvida, é o Desespero, e também o Desterro!
“Enfrentamo-nos aqui com uma verdadeira resistência, sem dúvida uma resistência que não conhece ainda a sua força, nem o modo como se há-de exercer.” [3]

2º Andamento – O Desterro; Resistir para nascer de novo


 

“Se é que existem, em épocas, talvez longas, de puro uso da violência, indivíduos que conservam a noção do direito, mesmo à custa de sacrifícios, então é aqui que temos de procurá-los.” [4]
Um Homem que tenha uma elevada ética, deve sempre dar a sua opinião assumindo todas as suas consequências, mesmo que tal signifique o extermínio desta elite. Dá-se assim o passo da floresta! É a passagem à resistência daquele que votou Não. Este, no entanto, não é ainda um Desterrado, tem antes de mais de afastar-se das maiorias, formando a sua opinião, e consolidando-a ganha um enorme poder face às minorias desqualificadas.
O seu primeiro desafio é o de ultrapassar o Medo. Fá-lo ao distinguir-se dos demais, ao fazer a sua fuga por herança ou talento inato, correndo riscos, resistindo e arquitectando uma nova concepção da liberdade, alicerçando-a nas raízes mais profundas e originais do ser humano. A vivência e a consciência plena da liberdade individual, e a sua busca interior, fornecem ao indivíduo a força para desfazer a teia do Terror e do Medo que parece inevitável.
“O lugar da liberdade é completamente diferente da mera oposição, diferente também daquele que a fuga lhe pode oferecer. Chamamos-lhe floresta. Nesse lugar há recursos diferentes do traçar um Não, que se coloca no círculo para isso previsto.” [5]
Chegando aqui, sabemos já que poderemos percorrer outro caminho. Esta elite que, não vende a sua opinião e consciência, prepara-se agora para combater por uma nova liberdade. Isto só é possível acontecer em épocas de crise, onde a ameaça é maior, onde o Ser Humano é abandonado à sua sorte, onde parece não haver saída.
Ernst Jünger traça assim o perfil da que para ele é uma das três maiores figuras da nossa época – o Desterrado; depois do Trabalhador e do Soldado Desconhecido.
O Trabalhador surgindo da catástrofe, está à altura dos acontecimentos, expande-se e penetra no Universo, de modo a o olhar com novos olhos, com uma nova focagem, dispondo de forças tamanhas, reinventa o mundo a partir de si e do seu esforço – trata-se de um ‘operário metafísico’. [6]
O Soldado Desconhecido é o anónimo herói, o bom espírito, o filho da terra, quem carrega o fardo dos horrores da guerra, aquele que estando na penumbra do esquecimento é invocado pelos povos, “…é um autêntico descendente da Cavalaria Ocidental” [7]
“Desterrado, por sua vez, chamamos àquele que, isolado pelo processo histórico, convertido num apátrida, se vê finalmente entregue ao extermínio. Esse poderia ser o destino de muitos, mesmo de todos – é preciso, por isso, acrescentar ainda uma outra determinação. Esta consiste em o Desterrado estar decidido à resistência e tencionar levar a cabo um combate talvez desesperado. Desterrado é, então, aquele que possui uma relação originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista epocal, na resistência que opõe ao automatismo e de que não tenciona tirar a sua consequência ética, o fatalismo.” [8]
Este Desterro traduz uma mudança de perspectiva; do niilismo, onde cresce a ilusão do engrandecimento do que se move à custa do que está na quietude, i.e., a potência técnica é apenas um vislumbre dos tesouros do ser.
Ao não abandonar o barco (Ser Temporal) e ir para a floresta (Ser Supra-temporal), o Desterrado dá o passo da floresta e manifesta a sua vontade de afirmação própria, por sua conta e risco, pensa por si, habitua-se à vida dura e age segundo a sua decisão. Resiste à expulsão, é o seu próprio guerreiro, juiz ou sacerdote. Com a aplicação deste exercício espiritual o Medo pode assim ser reduzido e dar-se passos significativos para a segurança.
“O passo da floresta cria no interior desta ordem o movimento, que a separa das formações zoológicas. Não é nem um acto liberal nem romântico, mas o espaço de manobra das pequenas elites, que sabem tanto o que a época lhes pede, como conhecem ainda outras exigências.” [9]
“O passo da floresta não deve ser compreendido como uma forma de anarquia dirigida contra o mundo das máquinas, embora a tentação seja por demais natural, sobretudo quando o esforço aponta ao mesmo tempo, para o restabelecimento da relação com o mito. O advento do mito não causa qualquer dúvida e está já iminente. Aliás, a ordem mítica sempre está presente e ascende à superfície, na hora favorável, como um tesouro. E, no entanto, enquanto princípio heterogéneo, ele surgirá precisamente do movimento supremo levado à sua maior intensificação. Movimento, neste sentido, é apenas o mecanismo, o grito do nascimento. Não regressamos ao mito, encontramo-lo de novo…” [10]
A floresta é o reino deste processo histórico, é porto, terra natal, paz e segurança, no interior de cada um de nós. Assim esta viagem perde o carácter ameaçador, quando o indivíduo toma consciência da força divina do seu ser.
A floresta é secreta, espaço íntimo, negro, de passagem descoberta por quem perde o Medo, onde a criança se sente perdida. Dominando o Medo, dá-se o primeiro passo para a morte e depois ultrapassamo-la, chegando-se à abundância da vida, vencendo o Terror, triunfando e nascendo de novo.
O Mestre Jünger escreve, em nossa opinião neste contexto um dos mais belos parágrafos de toda a literatura mundial:
“Eis o Jardim do Éden, eis as vinhas, os lírios, os grãos de trigo das parábolas cristãs. Eis o bosque das histórias de encantar com os seus lobos devoradores de homens, com as bruxas e os gigantes, mas também onde se encontra o bom caçador, os valados de rosas da Bela Adormecida, em cuja sombra o tempo pára. Eis as florestas germânicas e celtas, como o Bosque de Esmalte, no qual os heróis subjugam a morte, e, ainda o Jardim das Oliveiras.” [11]

3º Andamento – A Nova Ordem

“O veredicto do Desterrado reza assim: «Aqui e agora» – ele é o homem da acção livre e independente.” [12]
Aquele que não se satisfaz facilmente, que é inconformista e que busca sempre mais, aquele que trás consigo uma profunda inquietação, aquele que reconhece o seu grande sofrimento, aquele que duvida e que sofre, está agora à altura de responder ao Nada. Porque sabe que a questão fundamental a si feita é endereçada à sua substância. Só ele pode agora dominar o Tempo e expulsar o Nada.
A pequena massa de elite assume o compromisso da luta, com todas as suas consequências, sabe que do inimigo não terá qualquer tipo de complacência. A decisão é firme e forte, e isto requere coragem.
A Estratégia Conservadora de Jünger assenta na passagem do ‘meridiano zero’, ultrapassando os sistemas racionalistas e materialistas, implantando-se uma Nova Ordem.
O Desterrado deve ser audaz, não aceitar a lei dos poderosos, mas sim defender-se pelos meios do seu tempo, não se limitando apenas a alvos reais, abre caminhos mais altos em épocas e colectividades futuras e não se fica apenas pela conquista do seu reino de interioridade.
Só ao Desterrado cabe a balização dos limites da sua luta, não recorrerá a actos criminosos ou terroristas, age sim de forma ética, não por respeito às leis do Estado, mas sim pelo seu profundo respeito pelo que existe de mais nobre no Ser Humano.
Esta ‘Revolução’ é universal em solo, em língua, em cultura, em tempo. A sua arma será a resistência, a paciência, a audácia, a liberdade, a pureza do Ser Humano.
Dois valores são sagrados: a liberdade individual; e a propriedade, que em circunstância alguma será colectivizável. A sabedoria está no indivíduo e não na colectividade.
A batalha é travada no ‘mundo das coisas’, mas é no ‘mundo da linguagem’ que está a força desta elite. O ‘lugar da palavra é a floresta’, é lá que o Desterrado se alia e se funde ao pensador, ao teólogo e ao poeta. É por e com esta nova linguagem que se sai do deserto.
“No seu fundo primordial, a palavra já não é forma nem chave. Torna-se idêntica ao Ser. Torna-se poder da criação. E aí está a sua força imensa, que nunca se poderá converter em moeda. Aqui apenas têm lugar aproximações. A linguagem tece em favor do silêncio, como o oásis se consagra a uma fonte. E a poesia confirma que se conseguiu entrar nos jardins intemporais.  Disso vive então o Tempo.” [13]
Porque, termina Jünger no parágrafo seguinte: “Quem escava mais fundo, alcança em qualquer deserto a camada que conduz às fontes. E com a água sobe à superfície uma nova fertilidade.”

 

Filipe Miguel Dias Cardoso 
Penafiel / Zürich
Outubro de 2004 - Maio de 2005

 

[1] Devido ao nosso não domínio da língua germânica socorremo-nos da seguinte edição portuguesa para as citações neste artigo: Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang) [1951], Cotovia, Lisboa, 1995. Com tradução e posfácio de Maria Filomena Molder [ISBN 972-8028-53-9].
[2] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 9.
[3] Ernst Jünger. Obra cit., p. 19.
[4] Idem. Idem, p. 24.
[5] Idem. Idem, p. 38.
[6] O leitor pode aperceber-se com mais profundidade desta figura na obra de Ernst Jünger. Der Arbeiter. Herrshaft und Gestalt [1932], com uma excelente tradução para a língua portuguesa de Alexandre Franco de Sá, editada pela Hugin (2000), com um esclarecedor prefácio de Nuno Rogeiro [ISBN: 972-8310-78-1]
[7] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 28.
[8] Idem. Idem, p. 32.
[9] Idem. Idem, p. 23.
[10] Idem. Idem, p. 44/45.
[11] Idem. Idem, p. 52.
[12] Idem. Idem, p. 68.
[13] Idem. Idem, p. 97.
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