13.03.2007 - CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MIRCEA ELÍADE
O Destino tem destas coincidências…após a recente e estimulante leitura de dois livros de Elíade, “L’Epreuve du Labyrinthe “e “O Romance do Adolescente Míope” obras que abordam uma faceta mais intima da vida do autor, e no seguimento de uma investigação referente a Georges Dumézil, constatamos que o centenário de Mircea Elíade se comemorou no passado dia 13 de Março. Também a Urgrund não pode deixar passar em branco a comemoração desta efeméride, prestando assim homenagem a uma das figuras de topo da cultura europeia do século XX. Historiador das religiões e homem de letras, distingue-se pelas suas investigações no campo da linguagem simbólica utilizada por diversas tradições religiosas, e subsequente tentativa de limitar o seu significado através do destaque dos mitos primordiais patentes na génese dos fenómenos místicos. Considerava as experiências religiosas como Hierofanias (Manifestações do Sagrado no mundo). Dedicou a sua longa carreira ao estudo da evolução e metamorfoses destas manifestações ao longo dos tempos e através de várias culturas.
Nasceu em Bucareste, a 13 de Março de 1907, cedo se interessou pelo estudo da Biologia e da Química, possuindo inclusive um pequeno laboratório. Leitor inveterado, aumentou o seu tempo de leitura reduzindo as horas de sono para apenas cinco a seis por noite. Em 1925, com 18 anos ingressa na Universidade de Bucareste onde estudou Filosofia. Durante o decorrer de uma investigação levada a cabo em Itália onde pretende reunir materiais sobre Giordano Bruno, Marsílio Ficino e o Humanismo Renascentista, acaba por tomar conhecimento da obra “A History of Indian Philosophy“, de Surendranath Dasgupta (1885-1952), ficando muito impressionado com a leitura da mesma. Acabará por contactar Dasgupta com o intuito de se deslocar a Calcutá, onde permanece entre 1928 e 1931, dedicando-se ao estudo da Filosofia e do Sânscrito. Após algumas atribulações de carácter amoroso, permanece no Ashram de Rishikesh, nos Himalaias durante seis meses. Em 1932 regressa á sua Roménia natal onde apresenta a sua tese de Doutoramento intitulada “Essai sur les origines de la mystique indienne”, no decurso do ano de 1933. Nomeado professor assistente de História das Religiões e Filosofia Indiana, permanece em Bucareste entre 1933 e 1939. Em 1940 viaja para Londres, onde desempenha o cargo de adido cultural da embaixada romena, desempenhando posteriormente as mesmas funções em Lisboa de 1941 a 1944. No nosso país interessa-se por Sá de Miranda, Camões e Eça de Queiroz, organiza tertúlias e empenha-se no estabelecimento de elos mais fortes entre os latinos do Ocidente e do Oriente, impulsionando traduções, conferências e concertos. Escreve “Os Romenos, Latinos do Oriente“, uma síntese histórica, cultural e espiritual do seu país, e “Salazar e a Revolução Portuguesa“, livro em que defende que o general Antonescu, no poder em Bucareste, se poderia inspirar no regime português para criar um Estado autoritário mas não totalitário. No seu “Diário Português“, obra inédita até 2001, Elíade mostra-se por vezes crítico, embora não hostil a Portugal, país que considera periférico, um pouco à margem da história e da cultura. Após a II Guerra Mundial, é impedido de regressar à Roménia comunista, devido à sua ligação a Ionescu. Em 1945, parte para Paris, onde o facto de ter conhecido Georges Dumézil, lhe garantiu um emprego a tempo parcial na École des Hautes Études de Sorbonne, ensinando Religião Comparada. A partir desta época Elíade opta pela redacção dos seus trabalhos em língua francesa. Eugène Ionesco e Georges Bataille, contam-se entre as suas amizades durante o período francês. Mircea Eliade morreu em 1986, aos 79 anos, em Chicago, nos Estados Unidos, onde residia desde 1958, data em que foi convidado para dirigir o departamento de Religião da universidade daquela cidade, tendo-se posteriormente naturalizado norte-americano.
Alguns críticos “revisionistas”, arautos de uma certa intelectualidade bem pensante tentam “diabolizar” a figura maior que foi Elíade (assim como o fizeram com Dumézil, Pound, Knut Hamsun, Cioran entre muitos outros), numa tentativa vã e desonesta de desacreditar todo o trabalho de uma vida, acusando-o de ter sido Fascista, próximo do líder da Guarda de Ferro Romena, Corneliu Codreanu (ver o nª 266 da Prestigiada revista francesa L’Histoire, “Cioran, Elíade, Ionesco. Trois Roumains et le Fascisme”, por Michel Winock e A.Laignel-Lavastine, “Cioran, Eliade; Ionesco. L’oubli du fascisme”, Paris, PUF, 2002). Para o leitor mais interessado nos aspectos biográficos deste vulto permitimo-nos sugerir: O Romance do Adolescente Míope e A Provação do Labirintoambos editados em Portugal pelas Publicações D. Quixote. Júlio Mendes Rodrigo/Março 2007
Posted by in 14:23:29

