Thursday, October 16, 2008

COSMOVISÃO NO PALEOLÍTICO SUPERIOR


Por GUSTAVO EDUARDO G.P. PORTOCARRERO

Introdução

Nesta minha primeira colaboração com a revista URGRUND, na sequência do amável convite dos seus editores, vou procurar escrever um pouco sobre uma das mais antigas manifestações culturais no espaço europeu: a Cosmovisão dos nossos antepassados no Paleolítico Superior.

Os principais testemunhos desta Cosmovisão são as bens conhecidas gravuras rupestres, sendo que, no caso português, as mais notáveis encontram-se em Foz Côa (e que tanta polémica provocaram nos anos 90, quando a barragem que lá estava a ser construída ameaçava destruí-las).

Não faltam, actualmente, explicações para estes testemunhos e muitas mais irão, talvez, aparecer. De qualquer forma, gostava de deixar aqui um pequeno resumo daquela que me parece ser a explicação mais interessante sobre este assunto, nomeadamente a de Pierre Lévêque, a qual pode ser lida no primeiro capítulo de um seu livro, já publicado em Portugal pelas Edições 70, com o título: Animais, Deuses e Homens. O Imaginário das Primeiras Religiões.


Coexistência em equilíbrio dos caçadores do Paleolítico

Segundo Pierre Lévêque, a ideia que a sociedades de caçadores do Paleolítico tinham do mundo era o de um espaço de Forças Numinosas, as quais constituíam diversas relações entre si.

Tratava-se assim de um universo animista, onde existia um sistema de trocas compensatórias entre as energias vitais dos seus diversos componentes, nomeadamente humanos e animais

Esquematizando:

A experiência dos caçadores colocava-os perante duas séries de poderes: os do mundo animal e os da sexualidade humana; ambos eram essenciais à sobrevivência das comunidades humanas e estreitamente misturados entre si num sistema globalizante por intermédio do acto sexual.

Assim, o homem fecundava a mulher, do que resultava o nascimento de uma nova geração e a continuidade do grupo; simultaneamente, o homem matava um animal, um acto visto como análogo à cópula, sendo a lança do caçador o falo e a ferida no animal a vulva. Deste acto, resultava a obtenção da comida necessária à sobrevivência e continuidade do grupo. Por outro lado, os animais também matavam recorrentemente homens e mulheres.

Como este era um universo animista, onde as forças vitais coexistiam em equilíbrio, nenhum dos seus componentes podia acumular para si energia vital, sendo necessário que ocorresse uma troca ou compensação. Assim quando um caçador matava um animal, a energia que lhe era tomada de empréstimo (e nunca apossada, dado que ambos partilhavam das mesmas Forças Numinosas) era mais tarde retornada com a morte de algum membro da comunidade de caçadores por algum animal.

Compensação por via ritual

No entanto, esta dura relação, para ter algum sentido, precisava de ser legitimada a um nível superior. Assim, o universo era visto também como tendo dois níveis: o nível natural, em que humanos e animais viviam; e um sobrenatural onde os arquétipos das relações que entre eles existiam tinham lugar.

Lembre-se do que atrás se disse, de que a relação entre humanos e animais (que partilhavam as mesmas Forças Numinosas) quando se matavam e comiam um ao outro era vista como equivalente a um acto sexual, do qual resultava a sua continuidade.

Assim, neste mundo sobrenatural existia um Senhor dos Animais (Ver Imagem), geralmente com chifres (símbolo fálico), que fecundava uma Grande Mãe, sendo assim restabelecida a unidade do Cosmos, vivificando-o. Este acto era recriado nas sociedades caçadoras em rituais onde homens que se vestiam com peles e cabeças de animais fecundavam simbolicamente mulheres que representavam a Grande Mãe.

Note-se, contudo, que era mais vulgar, no mundo natural, um homem matar um animal, do que suceder o contrário. Portanto, a principal compensação ocorria sobretudo no mundo sobrenatural em que o Senhor dos Animais fecundava uma mulher.

Lisboa, 12 de Outubro de 2008

Posted by URGRUND at 16:22:53
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