Monday, November 3, 2008

CRISTANDADE OCIDENTAL E CRISTANDADE ORDODOXA

Por GUSTAVO EDUARDO G.P. PORTOCARRERO

Um tópico explorado por Philippe Nemo no livro O que é o Ocidente? (Edições 70) é a diferença entre a Cristandade Ocidental (nomeadamente Católica e Protestante) e a Cristandade Ortodoxa. Ambas as Cristandades partilham da mesma ética bíblica e ambas procuram alcançar o Céu.

O que as distingue então? A maneira como se chega ao Céu.

[Imagem Icon - Á esquerda ou a Ocidente está São Pedro e, à direita ou a Leste encontra-se São Paulo.]

No Ocidente, a partir do final do século XI, operou-se uma mudança revolucionária relativamente ao que os fiéis deviam fazer para alcançar a salvação. Como a Parusia, ou Segunda Vinda de Cristo, nunca mais ocorria, a Igreja Católica assumiu que tal devia-se ao facto de Cristo achar que o mundo se tinha tornado um lugar demasiado mau para que pensasse aqui permanecer. Desta situação apenas os homens eram responsáveis. Como tal, cabia-lhes transformar o mundo para o tornar digno da vinda de Cristo.

No entanto, era necessário valorizar a acção humana no mundo, algo que levou a Igreja Católica a questionar a teologia agostiniana que até então era dominante no Ocidente, a qual considerava a natureza humana destruída pelo pecado original, pelo que a salvação estava unicamente dependente da graça divina. Os teólogos do século XI (como S. Anselmo) vieram a considerar que o sacrifício de Cristo limpou a humanidade do pecado original, pelo que cada pessoa era apenas responsável pelos pecados cometidos em vida, os quais podiam ser remidos pela realização de boas obras que diminuíssem o mal no mundo. Desta forma, o homem ficou em posição de poder calcular a sua salvação, algo que veio a valorizar a acção racional, ao contrário do anterior fatalismo.

Ora, transformar o mundo implica, por um lado, conhecê-lo, e por outro, instaurar uma cooperação social pacífica e eficiente que permita agir sobre ele, isto é, respectivamente, uma ciência e um direito, do que resultou a colocação de dois instrumentos racionalizados - a ciência grega e o direito romano - ao serviço da ética e da escatologia bíblicas. Com estas transformações, a salvação passaria a estar dependente de um processo de transformação do mundo num lugar melhor.

Já no mundo Ortodoxo, a via para a salvação não passa por uma razão santificada mas pelo amor puro e heroísmo exacerbado dos fiéis, o que leva a uma atitude de “tudo ou nada”.

A adesão dos Ocidentais à acção temporal é vista pelo mundo Ortodoxo como um sinal de renúncia à dimensão sobrenatural da vida. O autor aponta como melhor exemplo disso o livro de Dostoievski Os Irmãos Karamazov, nomeadamente a passagem “A Lenda do Grande Inquisidor” em que os Ocidentais são apresentados como cínicos e politiqueiros, sendo a razão político-jurídica vista como materialista e destituída de alma.

Escusado será dizer, que os Ocidentais, por sua vez, criticam na visão Ortodoxa a fraca valorização da acção temporal.

Termino este texto com um exemplo caricato destas diferenças, decerto já notado por alguns leitores deste blog, e que diz respeito à forma como os imigrantes Ucranianos (Ortodoxos) e os Portugueses (Ocidentais) encaram a bebida. Enquanto os primeiros costumam estar ou bêbados ou sóbrios (a lógica do tudo ou nada), já para os Portugueses um “copinho” não faz grande mal (a lógica do cálculo).

Lisboa, 18 de Outubro de 2008


Posted by URGRUND in 15:07:44
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