Thursday, January 17, 2008

ERRATA A JANUS CAELI

Por um lamentável Lapsus memorium da nossa parte, devemos aqui fazer uma correccão ao Post de 21.Dezembro referente ao tema do Janus Caeli.
De facto foi e sempre será comemorado nesta ocasião a Festa Pagã de entrada na Porta do Céu, contudo em termos naturais, sabemos cientificamente que o Planeta Terra está mais próximo da sua estrela Sol (e não mais afastado, como erradamente foi escrito), este ponto denomina-se Periélio e ocorreu às primeiras horas do dia 3.Janeiro.
Fica a rectificação que contradiz o senso comum e que nos traíu na expontaniedade desse post. Não ficariamos bem perante toda a linha editorial deste Blog que, se quer regido por princípios de elevada qualidade, nem tão pouco pelo passado académico de um dos autores que teve como docentes na Faculdade de Ciências do Porto os eminentes Professores catedráticos Joaquim Pereira Osório e Teresa Lago, nas áreas da Dinâmica Espacial e da Astronomia, respectivamente.
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Thursday, January 10, 2008

O FERRO E OS FERREIROS: Carácter Sagrado e Imaterial

O Ferro: Dávida dos Deuses

O ferro é um metal duro e ao mesmo tempo nobre. Tem actualmente uma ampla utilização quotidiana, por exemplo, nas actividades agrícolas de práticas ancestrais, em ferramentas de trabalho como a enxada e a charrua, é também usado na construção e decoração de edifícios, entre outras.
Na morte surge na ornamentação da campa, onde por vezes se coloca o simbolismo da cruz e a própria representação de Cristo. Na guerra o ferro e outros metais servem igualmente sobre a forma de armas para a defesa contra o inimigo.1
O ferro também é utilizado num contexto mais sagrado, neste caso no templo, onde se exerce o culto religioso, onde o Homem medita e reza.
O ferro tem, portanto, um sentido religioso. Metal celeste (meteoro), foi considerado uma dádiva generosa dos Deuses, na época do domínio do bronze. Esta concepção aparece em várias culturas, por exemplo na egípcia, com referências no texto sagrado de Abu Simbel (séc. XII a.C.).
Acerca da crença da origem celestial do ferro, já os povos ‘primitivos’ trabalhavam o ferro meteórico muito antes de saberem utilizar os minerais de ferro encontrados à superfície da terra. Antes de descobrirem a fusão, os povos pré-históricos tratavam esses materiais como pedras, ou seja, considerando-os como materiais brutos para o fabrico de utensílios líticos.

Quando Cortez (séc. XV) perguntou aos chefes Astecas como obtinham as suas facas, eles mostraram-lhe o céu. Como os Maias do Iucatão e os Incas do Perú, os Astecas utilizavam unicamente o ferro meteórico, valorizando-o mais que o ouro. Ignoravam igualmente a fusão dos metais.
Os povos da antiguidade oriental compartilharam muito provável-mente ideias análogas. A palavra sumeria An-bar, o vocábulo mais antigo que designa o ferro, é constituída pelos sinos pictográficos ‘céu’+‘fogo’, que é traduzido geralmente por ‘metal celeste’ ou ‘metal estrela’.
Durante muito tempo também os Egípcios apenas conheceram o ferro meteórico. O mesmo se passa com os Hititas: um texto do séc. XIV afirma que os reis Hititas utilizavam o ‘ferro negro do céu’.

O Triunfo do Ferro

No entanto, a utilização dos meteoritos não estava em condições de promover uma ‘Idade do Ferro’ propriamente dita. Enquanto durou, o metal manteve-se raro (sendo tão precioso como o ouro), e o seu uso foi antes de tudo, ritual. Foi necessária a descoberta da fusão dos minerais para inaugurar uma nova etapa na vida da humanidade – a Idade do Metal. Isto é especialmente verdadeiro no que diz respeito ao ferro. Uma vez descoberto, ou aprendido o segredo de fundir a magnetite ou a hematite, não foi difícil conseguir grandes quantidades de metal, pois as jazidas eram muito ricas e de exploração fácil.
Só após a descoberta dos fornos e sobretudo após o aperfeiçoamento da técnica de ‘endurecimento’ do metal aquecido ao rubro é que o ferro atingiu a sua posição predominante. Pode-se apontar para 1200-1000 a.C., nas montanhas da Arménia, os primórdios desta metalurgia à escala industrial. Foi então que o segredo da fusão se propagou através do Próximo Oriente, do Mediterrâneo e da Europa Central.
Até muito tarde, o trabalho do ferro manteve-se fiel aos modelos e estilos da Idade do Bronze (tal como a Idade do Bronze prolongou primeiro a morfologia estilística da Idade da Pedra). O ferro aparece sobre a forma de ornamentos, amuletos e estatuetas. E conservou durante muito tempo o seu valor sagrado, que sobrevive aliás entre muitos ‘primitivos’ actuais.
Analisando os simbolismos e os complexos mágico-religiosos, pode-se concluir que antes de se impor na História militar e geopolítica da Humanidade, a ‘Idade do Ferro’ deu origem a um grande número de ritos, mitos e símbolos que se reflectiram na História espiritual da Humanidade.
O aparecimento tardio do ferro, seguido do seu triunfo industrial, influenciou profundamente os ritos e os símbolos metalúrgicos. Toda uma série de tabus ou de utilizações mágicas do ferro derivam da sua vitória e do facto de ter suplantado o bronze e o cobre, que representaram outras idades e outras mitologias.
Segundo Mircea Elíade 2 quer se julgue ter caído da abobada celeste, ou ter sido extraído das entranhas da terra, o ferro está carregado de potência sagrada. O autor cita mesmo o exemplo dos reis Malaios guardarem uma ‘barra sagrada de ferro’, que fazia parte das suas regalias, sendo objecto de uma veneração extraordinária a par de um terror supersticioso. De acordo com Elíade, factos como este não se tratam de simples ‘fetichismo’, da adoração de um objecto per si, de superstição, mas antes de respeito sagrado em relação a um objecto estranho, que não pertence ao universo familiar, que vem de algures e que é portanto um sinal do ‘Além’, uma imagem aproximativa da transcendência.
O ferro conserva ainda um extraordinário prestígio mágico-religioso, mesmo entre os povos que possuem uma História cultural bastante avançada e complexa. Plínio escrevia que o ferro é eficaz contra os noxia medicamentam e também adversus nocturnas limphationes 3.

Em 1907, Goldzinger acumulava já uma quantidade de documentos respeitantes ao uso do ferro contra os demónios. Vinte anos depois Seligmann aumentou em muito o número de referências. No nordeste da Europa, os objectos de ferro protegiam as colheitas das intempéries, dos sortilégios e do mau olhado.
Verificamos o prestígio da mais recente das ‘Idades do Metal’ – a ‘Idade do Ferro’ vitorioso, cuja mitologia, em grande parte submersa, sobrevive ainda em costumes, tabus e superstições muitas vezes insuspeitos. O ferro conserva o seu carácter ambivalente: pode encarnar igualmente o espírito diabólico ou divino. Em muitos locais, recorda-se obscuramente que o ferro representa não só a vitória da civilização (ou seja da agricultura), mas também da guerra.

O Ferreiro: Senhor do Fogo

O ferreiro era acima de tudo um trabalhador do ferro com uma condição de nómada, porque ele se deslocava permanentemente em busca do metal bruto e do trabalho, colocando-o em contacto com populações diferentes. Assim o ferreiro era o principal agente de difusão de mitologias, de ritos e dos mistérios metalúrgicos.
As ferramentas do ferreiro participam igualmente da sacralidade. Assim o próprio fole possui o seu simbolismo, mantendo um estreito relacionamento simbólico como sopro; desempenha no Taoísmo o papel de símbolo das relações entre o Céu e Terra, tendo o Céu como tampa e a Terra como fundo.4
A bigorna também possui um simbolismo; interpretada frequentemente como a contrapartida feminina do martelo, que é visto como activo e masculino. A bigorna também aparece como atributo da valentia, uma das virtudes cardeais.5
O Martelo-ferramenta, originalmente arma: simboliza, por essa razão, o poder e a força. É geralmente relacionado com o trovão, sendo por isso, na mitologia germânica, um atributo de Thör, deus do trovão. Na Antiguidade, o martelo era o utensílio de Hefaístos (Vulcano), deus do fogo e da forja. Em algumas culturas, são conhecidos os martelos ritualmente forjados a que se atribuía um poder mágico de protecção contra o mal. No Norte da Europa, inúmeros martelos figuram, por exemplo, nas pedras funerárias; trata-se talvez de um sinal com a função de defender o repouso do defunto contra influências malignas. Eventualmente, encontram-se também martelos na qualidade de símbolos disfarçados de cruz. Na Franco-maçonaria, é um símbolo da vontade orientada pela força da razão. No mundo jurídico, o martelo possui um significado simbólico e obrigatório nos leilões e em outros negócios. Após a morte do Papa, bate-se três vezes com um martelo de ouro nas paredes do quarto mortuário, proclamando-se assim o facto oficialmente.6

O martelo, o fole e a bigorna revelam-se animados e maravilhosos. Julgava-se poder operar pela sua própria força mágico-religiosa, sem ajuda do ferreiro. Elíade cita-nos o exemplo do ferreiro do Togo que fala, a propósito das suas ferramentas, do martelo e sua família. Em Angola, o Martelo é venerado, porque ele forja os instrumentos necessários à agricultura.
Os Ogowe, não conheciam o ferro e portanto não o trabalhavam, veneravam o fole dos ferreiros das tribos vizinhas. Estas crenças não se detêm apenas no poder sagrado dos metais, estendem-se á magia das ferramentas. A arte de fabricar ferramentas é de essência sobre-humana, quer seja divina ou demoníaca (o ferreiro também forja armas mortíferas). O martelo, sucessor do machado dos tempos líticos, tornou-se o símbolo dos deuses fortes, os deuses da tempestade. Assim pode-se compreender a razão pela qual os deuses da tempestade e da fecundidade agrária são por vezes imaginados como deuses ferreiros.
Todavia os próprios metais possuem o seu simbolismo: O Bronze, mais acessível à imaginação do fundidor e do artista, era o valor feminino da metalurgia, devido a tantos cuidados e melindres que exigia; o Ferro, por contraste duro, resistente, bárbaro, apenas cedia ao fogo e ao martelo, tomava a forma sempre mais simples que o ferreiro pretendia, e só de novo ao fogo dobrava e redobrava para ser deposto nas sepulturas do guerreiro, que usara dele as armas indomáveis. Era o elemento másculo.7
O ferreiro, assim como o alquimista, bem como o oleiro, era um ‘Senhor do Fogo’. É através do fogo que ele opera a passagem do elemento de um estado bruto até ao estado de obra final.

Hefaístos é considerado pela mitologia clássica como deus do Fogo, protector dos ferreiros e dos trabalhadores de todos os metais. Era ainda o deus da metalurgia e deus da saúde, por se aplicar o ferro ao rubro no tratamento de todas as feridas. Eram os coxos que trabalhavam o ferro nas forjas, assim Hefaístos era representado coxo, de camisa, com tenazes nas mãos e gorro na cabeça. Os próprios ciclopes eram considerados ferreiros.
Na mitologia hagiográfica cristã aparece-nos S.Clemente como advogado dos ferreiros e do Fogo. Mas também S. Jorge, como patrono dos ferreiros.8

Segundo Augusto P. Lima 9, Vulcano também seria considerado como deus dos ferreiros. Assim no fim do mês de Outubro, realizavam os pagãos festas ruidosas, chamadas ‘Chalius?’, consagradas ao deus Vulcano pelos ferreiros, caldeireiros, e outros artífices deste género.
Ainda existem reminiscências nas tradições populares relativas aos ferreiros, pois as cerimónias do paganismo perduram muitas vezes nas procissões, nas festas e nos arraiais, apesar de muitas vezes terem sido aplicadas medidas proibitivas pelos poderes eclesiásticos.

A Forja

«A forja é o lugar onde trabalha o ferreiro… está instalada numa casa térrea, longe da cozinha. Sobre uma pequena construção de pedra fica a fornalha, onde se coloca o carvão ardido. Dum lado leva uma pedra vertical, com um buraco no fundo, onde entra e apoia o bico do fole. Este, de grande proporções, é de couro nos lados e, em cima, debaixo e no meio, de madeira, accionado por meio de uma alavanca.

O ferro só se pode trabalhar em quente, para lhe dar as formas pretendidas. Por isso, o ferreiro tem uma gama variadíssima de ferramentas.
Os utensílios usados pelo ferreiro, são, de certo modo, rudimentares. Efectivamente, entre eles, conta-se, uma pia com água para temperar o ferro.
A cinza ou pó de carvão e de ferro são bons para as amatas dos burros. A bigorna, cavalete ou çafra, está no chão ou sobre um tronco de pau. O malho é o que bate no ferro, podendo bater duas pessoas alternadamente, por vezes o homem e a mulher, um filho e ajudante, ou o dono da ferramenta.
Encabados em ‘bergueiros’ de carvalho, rachados numa ponta e apertados por argolas ou arames, há o calcador, a talhadeira, o ponteiro, respectivamente para calcar, cortar, furar sobre a çafra.
Os tufos são tacos de ferro, para fazer o olho do enchadão, da sachola, da machada, etc. A sufrideira ajuda a dar as formas ao ferro. A craveira para fazer as cabeças dos cravos e pregos. A rosca faz as roscas e os parafusos. O berbequim para furar o ferro, a serra de aço e ferro, as tenazes de vários tamanhos e formas.
Têm alguns ferreiros, a forma de pedra, para fazer colheres de lançar a sopa, e o rebolo, para rebolar e afiar a ferramenta. É uma pedra redonda, como uma mó pequena de moinho, apoiada no centro e de cada lado por um ferro, que dum lado termina em manivela accionada pelo pé. Sobre o rebolo está um cornato a pingar água, enquanto se rebola a ferramenta. Quanto mais se bate no ferro, mais cresce.
A maior ciência desta arte é caldear o ferro, que antes se fazia com areia e carvão e hoje é com pasta – a calda. Ao ter o calor suficiente é necessário bater rapidamente. A têmpera da ferramenta é de muita perícia. Ao sair do lume, mete-se na pia de pedra e depois, com o chifre dum carneiro, unta-se a ferramenta, para dar melhor têmpera, amaciar e não estalar o ferro».
10

Património Imaterial: Os Ferreiros em Penafiel

Os artífices do ferro – os Ferreiros como todos os artesãos são uma classe muito peculiar, com um universo muito próprio. Com o seu património sobretudo imaterial, como as práticas, conhecimentos e aptidões, depois expresses em arte performativa, ritual e festiva – a sua herança cultural de classe transmitida de geração em geração.
Um exemplo muito concreto é aquele que se verifica por ocasião das Festas do Corpo de Deus em Penafiel no Norte de Portugal, com o Baile dos Ferreiros ou das Espadas. O baile dos Ferreiros assim designado, era apresentado pelos artífices desta especialidade, tanto nas referidas festas, como em outras de carácter nacional.

Durante a procissão de Corpus Christi em Penafiel realiza-se uma saída ao meio-dia desde os Paços do Concelho até à Igreja Matriz, onde o ofício dos ferreiros é (era) responsável da guarda de honra em duas filas à figura de S. Jorge a cavalo, realizando a ‘Dança das Espadas’, esta “Santa dança, que é realmente muito antiga e que o povo diz ser a única que pode entrar na igreja.” 11
Abílio Miranda 12 estudou este assunto em 1940, e citando os Tombos das Festas do Corpo de Deus (seiscentista - 1657 e setecentista – 1705), descreve:
“A dança das Espadas constará de quinze homens todos bem aparatados e todos com seus panetes brancos na cabeça e suas capelas de flores como sempre foi costume; esta dança dará os ferreiros e serralheiros, e entre todos escolherão quinze homens para dançarem dos melhores e não dançando alguns deles pagarão dois mil reis de cadeia, e o juiz que for da dita dança, a solicitará, e porá na rua mui perfeita sob a mesma pena de dois mil reis.A dança dos ferreiros, com capelas de flores na cabeça e fitas nas costas com espadas, fazendo muitas evoluções investidas e retiradas, era uma dança guerreira animada pelo tambor e pela gaita de fole.” 13
Nas palavras de Ângelo Pimentel 14:
“O baile dos ferreiros era o primeiro. O mestre de calção vermelho, presidia ao acto, que era acompanhado pela caixa de rufo e pela gaita de foles, que tinha percorrido a cidade pela manhã que, nos melhores tempos, vinham expressamente da Galiza para as festas do Corpo de Deus de Penafiel.”
Segundo Teresa Soeiro 15:
“O baile dos ferreiros, era ainda o tradicional, com os homens vestidos de casaco e calção brancos, faixa vermelha enrolada à cintura. Só o mestre envergava calção e colete vermelho. Dançavam ao som da agita de foles e de tamboril, uma complexa coreografia. Eram os membros deste baile dos ferreiros que faziam, a guarda de honra à Câmara durante a procissão, sendo por isso a única dança que sempre a pode integrar, mesmo depois de todos os interditos contra a presença de invenções nos actos religiosos. Este baile tem de ser necessariamente organizado todos os anos.”

A organização dos ferreiros nos burgos europeus fazia-se por ruas desde a Idade Média, sendo esta uma classe forte e possidente. Esta importância era devido ao facto da necessidade destes artesãos por parte da sociedade rural mas também da citadina, anteriormente à revolução industrial do séc. XIX.

Verso cantado nos bailes (acompanhado de gaita de foles)16:
A nossa arte é um ferro
Com ele vimos dançar;
Vimos a esta cidade
Procurar que trabalhar

A nossa arte é um ferro
O salário p’ra ganhar:
Sem trabalharmos primeiro,
Ninguém pode trabalhar.

Nem o rei pode ser rei
Sem haver o tal ferreiro;
Com ferro se vence a guerra,
Co’ele se ganha dinheiro.

Em Penafiel, os oficiais ferreiros encontravam-se sediados na Rua do Carmo, era aí que antes da grande industrialização se fazia sentir e se trabalhava a chapa de vergalhão, batido na bigorna, e de noite para que melhor se distinguisse o rubro onde as pancadas teriam de cair certeiramente para não se cortar a chapa. O barulho seria ensurdecedor, sendo o trabalho dirigido pelo mestre com o martelinho, batendo no ponto onde seguidamente descia a roda dos malhos (cinco). Forjado assim o ferro em chapa fina, era esta cortada e sujeita a formas e moldes especiais, e, rematando o trabalho, passava a ser garantido pelos peritos escolhidos pela câmara para este fim.17

Conclusão: Á Atenção das Consciências

Todos os estudiosos desta questão apontam Penafiel como importante centro de produção, especificamente de candeias, utilizadas na iluminaria, até ao advento da electricidade e da afirmação da ‘Luz’. Com o fim da utilização das candeias no uso doméstico, regista-se o ‘agoniar’ dos ferreiros, e da arte e cultura que encerram.
O que queremos é que a herança e tradição dos ferreiros perdure nas gerações futuras. Esperemos que de quem responsável se deslumbre igual desejo.
Contudo o despertar para a consciência desta realidade tarda. A herança deste património imaterial 18 que se pretende transmitido, recriado e continuado, fortalecerá o sentido de identidade da classe e da comunidade. Bem como, a sua preservação promove, sustém e desenvolve a diversidade cultural tão procurada actualmente, numa clara resposta à ameaça da homogeneização cultural fruto da Globalização.

Corpus – Christi, 2006
Júlio Mendes Rodrigo


Notas:
1 Ferreira, J.A. Pinto. Os Metais. A Arte Popular em Portugal. Editorial Verbo, p. 175-205.
2 Mircea Elíade (1907-1986), nascido em Bucareste (Roménia), filósofo, actuou principalmente no campo da História das Religiões, sendo durante 30 anos Director de Departamento na Universidade de Chicago (EUA). A sua análise assumia a existência do Sagrado como objecto de trabalho na religiosidade humana.
Apoiamo-nos grandemente na edição portuguesa da Relógio D’Água [Lisboa, 1987] da sua obra O Ferro e os Ferreiros (Forgerons et Alchimiste).
3 Nat. Hist. XXXIV, 44.
4 Helder Lexicon. Symbole. Verlag. Freiburg: Herder, 1990.
5 Idem.
6 Idem.
7 Chaves, Luís. Arte nos Metais. Arte Portuguesa: Artes Decorativas. Lisboa, Vol. 1.
8 Lima, José Augusto Pires. Os Ferreiros. Estudos Etnográficos, Filológicos e Históricos. Junta Província do Douro Litoral. Porto, 5 (1950), p.19.
9 Lima, José Augusto Pires de. Obra citada, p.19 e segs.
10 Direcção Geral da Divulgação. Artes e tradições de Bragança. Lisboa: Terra Livre, 1979. [Descrição de como trabalhavam os ferreiros do distrito de Bragança.]
11 Miranda, Abílio. Origem das danças nas festas de Corpus – Christi. In Penha – Fidelis. Penafiel, 1(4), 1927, p. 66-71.
12 Abílio Miranda (1893-1962), figura fulcral da vida cultural de Penafiel, autodidacta, investigador bairrista, arqueólogo, etnógrafo e historiador, actividades que manteve a par com a gerência da Pharmacia Miranda. Foi o grande impulsionador da actividade museológica no concelho, sendo Conservador do Museu e a partir de 1947 Director da Biblioteca-Museu. Em 1929 foi Presidente da Associação dos Bombeiros Voluntários de Penafiel, mais tarde foi Secretário e depois Presidente da Comissão Municipal da Cultura, bem como Vereador da Câmara Municipal e Delegado Concelhio da Junta Nacional de Educação. A sua actividade como autor foi extensa desde a colaboração em Jornais (O Penafidelense, O Marcoense, Jornal de Lousada), passando pela publicação da revista Penha-Fidelis, até aos fascículos culturais. Sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, membro da Associação de Arqueólogos Portugueses e da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnografia, recebeu a título póstumo a ‘Medalha de Honra da Cidade e Concelho’.
13 Miranda, Abílio. O Baile dos Ferreiros de Penafiel e o dos Pauliteiros de Miranda. Boletim do Douro Litoral. Porto, 2 (1940), 1ª Série.
14 Pimentel, Ângelo. Penafiel Antiga. Penafiel, 1970, p. 25-60.
15 Soeiro, Teresa. Os dias grandes. In Cadernos do Museu. Museu Municipal de Penafiel, Penafiel, 6-7 (Dias Festivos: O Corpo de Deus em Penafiel), 2000-2001, p. 168.
A Prof.ª Dr.ª Teresa Soeiro é a actual Directora do Museu Municipal de Penafiel.
16 Miranda, Abílio. Origem das danças nas festas de Corpus – Christi. In Penha – Fidelis. Penafiel, 1 (4), 1927, p. 66-71.
17 Lima, José Augusto Pires de. Obra citada.
18 A Convenção para a Preservação do Património Imaterial (Convention for the Safeguarding of the Intangible Cultural Heritage) define património imaterial como as práticas, expressões, bem como conhecimentos ou aptidões, que as comunidades, grupos e nalguns casos indivíduos, reconhecem como parte da sua herança cultural. Tais como: expressões orais, incluindo a língua como veículo do património imaterial; artes performativas; práticas sociais, rituais e eventos festivos; e artesanato.

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Thursday, December 20, 2007

JANUS CAELI


Hoje 21.Dezembro ocorre o
Janus Caeli, a Festa Pagã do Solstício de Inverno.

Trata-se do fenómeno natural que corresponde ao
momento em que o planeta Terra se encontra mais afastado
do corpo central - Sol, e esta será a mais longa noite de todo o ano.
Em termos esotéricos corresponde à Porta do Céu, quando todo
o iniciado desce ao fundo do poço e renasce para a nova vida,
entrando num novo estado.

Desejamos a todos os que nos visitam e que partilham destes
mysteres, um revigorado fortalecimento da sua vivência enquanto
Homens Livres, e como seres humanos conscientes da nossa relação
bipolarao: ao Sagrado e ao profano, e à Ordem natural do Universo, i.e.
à Tradição.

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Monday, September 10, 2007

ENCONTRAR AS RAÍZES: AS FRAGAS DE PANÓIAS

Há lugares onde nos sentimos mais próximos das nossas raízes, por razões enigmáticas, algo de telúrico existe aí que desperta zonas aparente-mente adormecidas do nosso Ser. As Fragas de Panóias é um desses sítios.
Panóias é um sítio ermo e bravio, situado na aldeia de Assento, na freguesia de Vale de Nogueiras (Vila Real). A apenas 7 km da capital trasmontana, Panóias guarda ainda hoje vestígios das Religiões dos nossos passados e é no seu género um dos mais marcantes legados da antiguidade luso-romana ainda existentes em Portugal. Testemunha por isso a elevada romanização da região cujo ponto estratégico foi as minas de ouro na serra da Padrela. Apesar do seu enquadramento numa crescente envolvente urbana mantém pela sua singularidade, monumentalidade e simbolismo associado, um lugar de destaque no património nacional.
[Consultar a figura 1, do Albúm com título Fragas de Panóias, na barra lateral deste blog, para sua localização e enquadramento Ibérico.]
As Fragas de Panóias ou Santuário de Panóias é um Sítio com protecção legal por parte do Estado português como Monumento Nacional desde 16.06.1910, trata-se de um Santuário rupestre galaico-romano provavelmente construído entre finais do séc. II e os inícios do séc. III d.C., por ordem de Gaius C. Calpurnius Rufinus, senador e alto funcionário do governo provincial romano, que terá introduzido o culto especialemnete a Serápis, em local onde já haveria um culto indígena. 
De um modo geral, o recinto, que se encontra vedado desde 1985, distingue-se pela conservação de três (entre outras) grandes fragas (rochedos de granito) nas quais estão cavados tanques de formato rectangular e pias circulares, possuindo inscrições dedicadas a deuses indígenas, romanos e orientais. Quatro destas são consagradas por Gaius C. Calpurnius Rufinus, sendo igualmente mencionados os Lapiteas, possivelmente os habitantes desta área, encontrando-se estas inscrições num mesmo rochedo, situado na extremidade Sul do santuário. São ainda visíveis em três rochedos os entalhes para o assentamento dos alicerces dos templos que se deverão ter erguido sobre estes, tipo de estruturas aliás referidas em duas inscrições, bem como orifícios circulares de possíveis gonzos de portas, possuindo o penedo da extremidade Norte escadas para acesso à plataforma superior onde se encontram as estruturas. Particularmente, este rochedo com uma altura de cerca de 3,5 m e em local que domina o conjunto da esplanada, tem a particularidade de apresentar uma disposição dos tanques que denuncia uma sobreposição de estruturas, num momento mais avançado da utilização do sítio.
Desde o séc. XVIII, Panóias tem sido objecto de estudo até aos nossos dias, por vários autores. Remonta a 1721, quando António Gonçalves de Aguiar levou a cabo a Relação da freguesia de S.Pedro de Valnogueiras, a 1ª referência na literatura a Panóias. Aí se descrevem as rochas e as cavidades que nelas se vêm, e as inscrições aí conservadas. Jerónimo Contador de Argote apresentou, em 1732, uma descrição grandemente apoiado em A. Gonçalves de Aguiar. Também J. Leite de Vasconcellos, que em inícios do séc. XX foi um incansável investigador da Etnografia e Arqueologia da Lusitânia, estudou Panóias.
De facto, para todos os estudiosos sempre foi evidente que em Panóias havia tido lugar um culto, segundo parece originalmente indígena, posteriormente aplicado a várias divindades, entre elas Serápis.
 Á luz da corrente interpretação de todo o conjunto de Panóias, poderemos estabelecer um percurso, ao mesmo tempo que se fazem interagir todos os elementos. De facto foi o Prof. Géza Alföldy (1), em 1990, que estabelecendo uma nova leitura das inscrições, baseando-se na relação entre estas e a disposição espacial e estrutural de toda a Area Sacra, fixou o culto que aqui teria lugar, os seus momentos e o seu itinerário, que agora seguiremos ao longo deste texto [observar para tal a figura 2 - ver Albúm com título Fragas de Panóias, na barra lateral deste blog].
Destacando de toda a Area Sacra três fragas identificadas sequencialmente (I, II, III), situando-se a fraga I à entrada do recinto, seguindo-se a fraga II e mais a Norte no alto da colina encontramos a fraga III. Todos estes fragões apresentam cavidades, mas as inscrições conhecidas concentram-se em volta da fraga I [ver figura 3].
O primeiro ponto neste itinerário situa-se a uns 6/7 m para Este da fraga I, no lado direito do caminho a seguir desde a entrada, aí estaria até à sua destruição no séc. XIX, um texto gravado sobre uma pequena rocha orientado para a fraga I. Sistematizada como a Inscrição nº 1, que a partir da tradição se pode reconstruir do modo seguinte:
Aos Deuses e Deusas deste recinto sagrado. As vítimas que se sacrificam, se matam neste lugar. As vísceras queimam-se nas cavidades quadradas em frente. O sangue verte-se aqui ao lado sobre as pequenas cavidades. Estabeleceu isto Gaius C(—) Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial.
O mystes teria que matar a vítima na rocha pequena e verter o sangue nas pequenas cavidades (2) que se vêm claramente. Mas quanto às vísceras, o mystes teria que as queimar (‘em frente’), i.e., teria que ir para a fraga I onde se observam as mencionadas cavidades quadradas.
Todas as restantes inscrições encontram-se esculpidas na face vertical da fraga I, que é muito extensa, e para o qual se sobe por quatro degraus. Subindo por esta escadaria situada no lado setentrional, partindo desde a rocha com a Inscrição nº 1, antes de subir ao topo da fraga I, o mystes passava pela Inscrição nº 2:
Calpurnius Rufinus consagrou o templum (recinto sagrado) uma aedes (um santuário) dedicado aos Dii Severi, locati – fundada aqui – evidente por ele mesmo.
Á frente desta inscrição é hoje ainda possível reconhecer os vestígios das fundações da dita aedes. Nesta altura do itinerário o mystes era advertido que os deuses deste templo eram os Dii Severi, os deuses dos infernos, e que esta aedes era o seu templo. Ao subir à superfície da fraga o mystes teria que queimar as vísceras nestas quadrata, referentes às cavidades rectangulares com vestígios de fogo que aí se observam, conforme as instruções da Inscrição nº 1.
Daí o mystes passava pela escadaria à plataforma situada à frente da fraga e passava ao seu lado Oeste e à Inscrição nº 3:
Aos deuses e deusas e também a todas as divindades dos Lapiteae Gaius C(—) Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial, consagrou junto com este recinto sacro para sempre uma cavidade, aonde se queimam as vítimas segundo o rito (3).
Isto confirmava que o lacus, a cavidade (4) que se encontra sobre a inscrição, uma das quadrata, serve para a incineração das vísceras.Também a inscrição diz que o templum não está dedicado somente às divindades já conhecidas nas anteriores inscrições, mas também aos numina dos Lapitae, sem dúvida os deuses da comunidade indígena de Panóias.  
Mais à frente no mesmo lado Oeste chegamos à Inscrição nº 4:
Ao altíssimo (deus) Serapis, por favor da sorte e dos mysterios (em que está iniciado), G. C. Calpurnio Rufino, atendido, como foi, no voto que fizera, (dedicou este monumento). (5)
O Senador consagrou o recinto sagrado à divindade principal dos deuses do inferno, ao Altíssimo Serápis, incluindo uma gastra e mystaria. A gastra (cavidade redonda)(6) visível na rocha situada imediatamente detrás da inscrição. A sua função nos mistérios devia ser a de assar a carne das vítimas, que o mystes comia aqui, frente ao nome da divindade altíssima. Este era o acto principal da iniciação, como se deduz por comparação de outros mistérios. 
J. Leite de Vasconcellos considerou preciosa a aplicação da palavra mystaria (mysterios) ao culto de Serápis, este é identificado com a suprema divindade helénico-romana do céu, pois a ele se aplica o epíteto de altíssimo e os de o(ptimus) e m(aximus) que são habituais de Júpiter. 
A Inscrição nº 5 indica o acto final; nesta cavidade – ao contrário das anteriores sem vestígios de fogo – encontramos directamente por trás da inscrição, onde o mystes se purificava com sangue, da grasa? e dos … com que se havia manchado.
Conclui-se que se trata de um ritual de iniciação que se apresenta com uma ordem e um itinerário muito claro: a matança das vítimas; o sacrifício do sangue nas cavidades pequenas para as divindades dos infernos; a incineração das vísceras como presente aos deuses; o consumo da carne da vítima como acto principal da iniciação, combinado com a revelação do nome do dono máximo dos infernos, o Altíssimo Serápis; e por fim a purificação.
Podemos supor que noutros sítios do recinto, sobretudo na aedes dos Dii Severi e na aedes da fraga II, a iniciação repetia-se num grau mais elevado. O lugar mais importante foi seguramente a fraga III, onde existiu também uma aedes assente em cavidades dentro e fora da fraga, maiores que todas as outras, pois correspondiam ao tamanho de um sepulcro. Aqui teria lugar o acto principal das iniciações, segundo parece: a morte ritual do mystes, sua sepultura e por fim a sua ressurreição.
Já em 1913 J. Leite Vasconcellos rejeitava a tese do uso industrial destas cavidades, como alguns autores chegaram a defender afirmando que: “…esta hypothese não a posso aceitar, porque todos os grupos de cavidades deviam relacionar-se entre si, visto ellas estarem proximas umas das outras; se ninguem duvida do caracter religioso de umas, demonstrado nas suas inscrições, as restantes proclamam caracter analogo.” (7)
Todas as inscrições descritas se identificam como partes de uma lex sacra, mas aplicadas a Panóias em concreto. Ao mesmo tempo, os extractos da lex sacra estão incorporados no contexto de uma inscrição votiva que menciona os nomes das divindades honradas para além do nome e estatuto do dedicante.
A Inscrição nº 4 é bilingue, em latim e grego, o grego explica-se por o deus ter procedência alexandrina, e o nome do dedicante está em latim, por este ser romano, ou lusitano romano.(8)
Assim a língua original do templo foi o grego, mas o uso da palavra mystaria em vez de mysteria indica um dialecto dórico ou pseudo-dórico. Os dados sobre a sua origem permitem supor com grande probabilidade que seja Perge de Panfilia, cidade de tradição dórica e um dos centros do culto de Serápis, situada na Ásia Menor.
Panóias pode ser portanto considerado um Serapeum, apesar de se venerarem aí várias divindades «os deuses adorados no mesmo templo» (9),e onde Serápis  é identificado, neste templo, como a suprema divindade helenico-romana do céu, deus dos deuses ’severos’ ou dos infernos, e cujos rituais possuíam forte influência oriental, em especial na Ásia Menor, onde se encontram vestígios desse culto.
Segundo alguns tratados mitológicos, Serápis, é uma divindade greco-egípcia. Quanto à sua genealogia, pensa-se tratar-se de uma forma mista dos deuses egípcios Osiris e Ápis, que conjugados pela morte daquele, dariam origem ao deus Úserápis, que os gregos escreveram Serápis.
Ísis e Serápis receberam culto na Itália, pelo menos já na primeira metade do séc. II a.C. Em Roma, só em dias de Nero o Estado romano os reconheceu; então se restauraram ou santificaram templos antigos, se construíram outros novos, e se celebraram publicamente as festas egípcias.(10)
J. Leite de Vasconcellos refere que os cultos a Ísis e Serápis, entre todos os cultos orientais implantados na Lusitânia, que tiveram aqui o maior florescimento no séc. II d.C., foram os que deixaram maior número de monumentos distribuídos desde o Algarve até Trás-os-Montes.(11)

(1) Conjuntamente com Th. Hauschild e apoio do Intituto Arqueológico Alemão (cf. Biblio.)
(2) J. Leite de Vasconcellos comparou estas pias e tanques com os que observara em 1909 no pátio do Templo duplo de Kom Ombos no Alto-Egipto, que serviriam para cerimónias religiosas, e também com as fossas em que se recebia o sangue e os ossos das vítimas nos sacrifícios a Mithra. [J. Leite de Vasconcellos. Religiões da Lusitânia, Vol. III, p. 470.]
(3) J. Leite de Vasconcellos fez a seguinte leitura, em tudo idêntica: G. C. Calpurnio Rufino consagrou, com este templo, aos deuses e às deusas, e a todos os nomes em geral, e também aos dos Lapiteas, um tanque perpetuo (ou indestructível), onde as vítimas se queimam segundo o voto [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 468].
(4) Esta pia rectangular tem as dimensões de 91 por 60 cm e com 39 cm de profundidade [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 470].
(5) Segundo a leitura que Leite Vasconcellos apurou in loco [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 346].
(6) Esta pia circular tem 55 cm de diâmetro, cerca de 40 cm de profundidade e dista 61 cm da Inscrição nº 4 [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 470].
(7) J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 474.
(8) Idem. Idem, p. 347.
(9) Idem. Idem, p. 350/351.
(10) Idem. Idem, p. 341.
(11) dem. Idem, p. 352.
Como chegar: Partindo do centro de Vila Real pela N322 em direcção a Sabrosa. Percorrendo 3 km, no fim de Abambres, virar à esquerda no cruzamento para Sabrosa, passando pela entrada do Palácio de Mateus à direita. Ao km 6, no fim de Constantim, virar à esquerda no cruzamento (indicação de 1 km Panóias), seguindo pela EN578. Ao km 7 seguir à direita o sinal amarelo indicativo de Panóias. Chegada ao parque de estacionamento junto à cerca.
Informações:
¸ 09-12:30/14-17h [ter.-sex.]
Ü 1,5€ Normal
) +351 226 179 345
F +351 226 197 080 [visita guiada]
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Friday, March 16, 2007

13.03.2007 - CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MIRCEA ELÍADE


O Destino tem destas coincidências…após a recente e estimulante leitura de dois livros de Elíade, “L’Epreuve du Labyrinthe “e “O Romance do Adolescente Míope” obras que abordam uma faceta mais intima da vida do autor, e no seguimento de uma investigação referente a Georges Dumézil, constatamos que o centenário de Mircea Elíade se comemorou no passado dia 13 de Março.
Também a Urgrund não pode deixar passar em branco a comemoração desta efeméride, prestando assim homenagem a uma das figuras de topo da cultura europeia do século XX. Historiador das religiões e homem de letras, distingue-se pelas suas investigações no campo da linguagem simbólica utilizada por diversas tradições religiosas, e subsequente tentativa de limitar o seu significado através do destaque dos mitos primordiais patentes na génese dos fenómenos místicos. Considerava as experiências religiosas como Hierofanias (Manifestações do Sagrado no mundo). Dedicou a sua longa carreira ao estudo da evolução e metamorfoses destas manifestações ao longo dos tempos e através de várias culturas.

Nasceu em Bucareste, a 13 de Março de 1907, cedo se interessou pelo estudo da Biologia e da Química, possuindo inclusive um pequeno laboratório. Leitor inveterado, aumentou o seu tempo de leitura reduzindo as horas de sono para apenas cinco a seis por noite.
Em 1925, com 18 anos ingressa na Universidade de Bucareste onde estudou Filosofia. Durante o decorrer de uma investigação levada a cabo em Itália onde pretende reunir materiais sobre Giordano Bruno, Marsílio Ficino e o Humanismo Renascentista, acaba por tomar conhecimento da obra “A History of Indian Philosophy“, de Surendranath Dasgupta (1885-1952), ficando muito impressionado com a leitura da mesma. Acabará por contactar Dasgupta com o intuito de se deslocar a Calcutá, onde permanece entre 1928 e 1931, dedicando-se ao estudo da Filosofia e do Sânscrito. Após algumas atribulações de carácter amoroso, permanece no Ashram de Rishikesh, nos Himalaias durante seis meses.
Em 1932 regressa á sua Roménia natal onde apresenta a sua tese de Doutoramento intitulada “Essai sur les origines de la mystique indienne”, no decurso do ano de 1933. Nomeado professor assistente de História das Religiões e Filosofia Indiana, permanece em Bucareste entre 1933 e 1939.
Em 1940 viaja para Londres, onde desempenha o cargo de adido cultural da embaixada romena, desempenhando posteriormente as mesmas funções em Lisboa de 1941 a 1944. No nosso país interessa-se por Sá de Miranda, Camões e Eça de Queiroz, organiza tertúlias e empenha-se no estabelecimento de elos mais fortes entre os latinos do Ocidente e do Oriente, impulsionando traduções, conferências e concertos. Escreve “Os Romenos, Latinos do Oriente“, uma síntese histórica, cultural e espiritual do seu país, e “Salazar e a Revolução Portuguesa“, livro em que defende que o general Antonescu, no poder em Bucareste, se poderia inspirar no regime português para criar um Estado autoritário mas não totalitário. No seu “Diário Português“, obra inédita até 2001, Elíade mostra-se por vezes crítico, embora não hostil a Portugal, país que considera periférico, um pouco à margem da história e da cultura.
Após a II Guerra Mundial, é impedido de regressar à Roménia comunista, devido à sua ligação a Ionescu. Em 1945, parte para Paris, onde o facto de ter conhecido Georges Dumézil, lhe garantiu um emprego a tempo parcial na École des Hautes Études de Sorbonne, ensinando Religião Comparada. A partir desta época Elíade opta pela redacção dos seus trabalhos em língua francesa. Eugène Ionesco e Georges Bataille, contam-se entre as suas amizades durante o período francês.
Mircea Eliade morreu em 1986, aos 79 anos, em Chicago, nos Estados Unidos, onde residia desde 1958, data em que foi convidado para dirigir o departamento de Religião da universidade daquela cidade, tendo-se posteriormente naturalizado norte-americano.


Alguns críticos “revisionistas”, arautos de uma certa intelectualidade bem pensante tentam “diabolizar” a figura maior que foi Elíade (assim como o fizeram com Dumézil, Pound, Knut Hamsun, Cioran entre muitos outros), numa tentativa vã e desonesta de desacreditar todo o trabalho de uma vida, acusando-o de ter sido Fascista, próximo do líder da Guarda de Ferro Romena, Corneliu Codreanu (ver o nª 266 da Prestigiada revista francesa L’Histoire, “Cioran, Elíade, Ionesco. Trois Roumains et le Fascisme”, por Michel Winock e A.Laignel-Lavastine, “Cioran, Eliade; Ionesco. L’oubli du fascisme”, Paris, PUF, 2002).
Para o leitor mais interessado nos aspectos biográficos deste vulto permitimo-nos sugerir: O Romance do Adolescente Míope e A Provação do Labirintoambos editados em Portugal pelas Publicações D. Quixote.
Júlio Mendes Rodrigo/Março 2007
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Thursday, February 22, 2007

APROXIMAÇÃO NÃO MONÓTONA A ‘O PASSO DA FLORESTA’ DE ERNST JÜNGER: UMA ESTRATÉGIA DE ACÇÃO CONSERVADORA


A obra de Jünger Der Waldgang [1] situa-se na procura incessante da resistência e de caminhos que conduzam à liberdade Humana, vejamos:
‘O passo da Floresta’ é o ensaio obrigatório e fundador para todos os que querem penetrar no pensamento de Jünger. É onde se esclarece o problema e se indica uma estratégia para o debelar, mas avisando-se que o caminho é difícil, duro, tumultuoso e possivelmente mortal. Trata-se de um caminho de cada Ser Humano individualmente. De sentir o ‘chamamento e partir para a floresta’ por passos lentos mas sólidos, como são sempre os de um verdadeiro Homem Livre…
Ao leitor é esperada uma disponibilidade total, mente aberta e inconformista, mas que seja livre no seu arbítrio e solitário na sua caminhada.
Podemos, para uma mais fácil organização de ideias, encarar Der Waldgang como uma obra em três andamentos:
No 1º Andamento (Cp. 1-7) são identificadas as questões do nosso tempo – o «Aqui e Agora», que nos são dirigidas constantemente. Constata-se a imposição do «Isto e Aquilo», da limitação da liberdade e de dizer Não, e do risco de um entre cem indivíduos o fazer.
No 2º Andamento (Cp. 8-25) surge a figura do Desterrado, aquele que adopta um Caminho e decide lutar pela sua liberdade e independência e dá ‘O passo da floresta’. Fá-lo numa época de catástrofes onde mesmo em minoria os Homens podem ser poderosos, porque se encontram a si próprios na sua essência indivisível e indestrutível.
Passando dos sistemas racionalistas e materiais, i.e. do Deserto, através do processo de purificação na floresta, dá-se os últimos passos, e ultrapassando a ‘linha do meridiano zero’ chega-se a uma Nova Ordem, ultrapassando um movimento espiritual niilista. Neste 3º Andamento (Cp. 26-34) o Desterrado decide pela sua consciência e não de acordo com doutrinas, mas respeitando as leis, identificando-se com uma Estratégia Conservadora. A sua busca torna-o invulnerável e nele nasce a resposta para as questões do mundo.

1º Andamento – «Aqui e Agora»; Aproximação ao problema

Logo na abertura Jünger avisa que estamos perante um problema complexo e que a ele nos iremos aproximar por uma nova abordagem e pela formulação de um modelo inovador. A interpretação, resolução e solução final do exercício será efectuada descontinuamente no tempo, individualmente, sem truques ou atalhos. Todo o percurso será fruto de uma dinâmica com um movimento muito significativo, resultante de uma energia nova e poderosa.
“O passo da Floresta – atrás deste título não se esconde qualquer idílio. O leitor deve, antes, apreendê-lo como um excurso grave, que excede não só os atalhos já abertos, como também os limites da contemplação.” [2]
A formulação do problema e a análise das condições existentes é o primeiro passo, mas antes devemos ter em conta uma premissa: a de que são vários os problemas do Homem. Vários e mutáveis na essência, e contudo sempre presentes. O que se verifica é que quando somos chamados a responder não é suposto que tenhamos de facto algo a dizer e mesmo que tenhamos é dado valor nulo ao nosso contributo. Jünger chama o leitor ao problema de uma forma surpreendente dando o ‘exemplo da eleição’; ironicamente a conquista máxima do Homem e o pilar fundamental da Democracia.
Sabendo que geralmente se criam as condições para umas eleições justas, conscientes e imparciais e que o que conta é a ‘cifra final’, o que é que se passa e acontece com aquela figura que quer votar em minoria no Não? Sendo que as eleições se converteram em plebiscitos, mantendo a ilusão da liberdade de escolha, tratam-se de uma encenação, onde uma vez dissonante, uma voz é isolada e aniquilada, embora servindo para dar expressão à restante maioria apoiante do Estado, que se alimenta assim do Medo e do Terror dos indivíduos.
O Homem que cai nesta armadilha fá-lo porque está disposto a sacrificar-se pela sua opinião, pela liberdade. Encarando que se tratará de uma ínfima parte daqueles que querendo votar Não, não se abstiveram, nem se deixaram dominar pelo terror, serão apesar disso muito significativos. O que surge deste Não é a última possibilidade de expressão, é a negação do Deserto, da Dúvida, é o Desespero, e também o Desterro!
“Enfrentamo-nos aqui com uma verdadeira resistência, sem dúvida uma resistência que não conhece ainda a sua força, nem o modo como se há-de exercer.” [3]

2º Andamento – O Desterro; Resistir para nascer de novo


 

“Se é que existem, em épocas, talvez longas, de puro uso da violência, indivíduos que conservam a noção do direito, mesmo à custa de sacrifícios, então é aqui que temos de procurá-los.” [4]
Um Homem que tenha uma elevada ética, deve sempre dar a sua opinião assumindo todas as suas consequências, mesmo que tal signifique o extermínio desta elite. Dá-se assim o passo da floresta! É a passagem à resistência daquele que votou Não. Este, no entanto, não é ainda um Desterrado, tem antes de mais de afastar-se das maiorias, formando a sua opinião, e consolidando-a ganha um enorme poder face às minorias desqualificadas.
O seu primeiro desafio é o de ultrapassar o Medo. Fá-lo ao distinguir-se dos demais, ao fazer a sua fuga por herança ou talento inato, correndo riscos, resistindo e arquitectando uma nova concepção da liberdade, alicerçando-a nas raízes mais profundas e originais do ser humano. A vivência e a consciência plena da liberdade individual, e a sua busca interior, fornecem ao indivíduo a força para desfazer a teia do Terror e do Medo que parece inevitável.
“O lugar da liberdade é completamente diferente da mera oposição, diferente também daquele que a fuga lhe pode oferecer. Chamamos-lhe floresta. Nesse lugar há recursos diferentes do traçar um Não, que se coloca no círculo para isso previsto.” [5]
Chegando aqui, sabemos já que poderemos percorrer outro caminho. Esta elite que, não vende a sua opinião e consciência, prepara-se agora para combater por uma nova liberdade. Isto só é possível acontecer em épocas de crise, onde a ameaça é maior, onde o Ser Humano é abandonado à sua sorte, onde parece não haver saída.
Ernst Jünger traça assim o perfil da que para ele é uma das três maiores figuras da nossa época – o Desterrado; depois do Trabalhador e do Soldado Desconhecido.
O Trabalhador surgindo da catástrofe, está à altura dos acontecimentos, expande-se e penetra no Universo, de modo a o olhar com novos olhos, com uma nova focagem, dispondo de forças tamanhas, reinventa o mundo a partir de si e do seu esforço – trata-se de um ‘operário metafísico’. [6]
O Soldado Desconhecido é o anónimo herói, o bom espírito, o filho da terra, quem carrega o fardo dos horrores da guerra, aquele que estando na penumbra do esquecimento é invocado pelos povos, “…é um autêntico descendente da Cavalaria Ocidental” [7]
“Desterrado, por sua vez, chamamos àquele que, isolado pelo processo histórico, convertido num apátrida, se vê finalmente entregue ao extermínio. Esse poderia ser o destino de muitos, mesmo de todos – é preciso, por isso, acrescentar ainda uma outra determinação. Esta consiste em o Desterrado estar decidido à resistência e tencionar levar a cabo um combate talvez desesperado. Desterrado é, então, aquele que possui uma relação originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista epocal, na resistência que opõe ao automatismo e de que não tenciona tirar a sua consequência ética, o fatalismo.” [8]
Este Desterro traduz uma mudança de perspectiva; do niilismo, onde cresce a ilusão do engrandecimento do que se move à custa do que está na quietude, i.e., a potência técnica é apenas um vislumbre dos tesouros do ser.
Ao não abandonar o barco (Ser Temporal) e ir para a floresta (Ser Supra-temporal), o Desterrado dá o passo da floresta e manifesta a sua vontade de afirmação própria, por sua conta e risco, pensa por si, habitua-se à vida dura e age segundo a sua decisão. Resiste à expulsão, é o seu próprio guerreiro, juiz ou sacerdote. Com a aplicação deste exercício espiritual o Medo pode assim ser reduzido e dar-se passos significativos para a segurança.
“O passo da floresta cria no interior desta ordem o movimento, que a separa das formações zoológicas. Não é nem um acto liberal nem romântico, mas o espaço de manobra das pequenas elites, que sabem tanto o que a época lhes pede, como conhecem ainda outras exigências.” [9]
“O passo da floresta não deve ser compreendido como uma forma de anarquia dirigida contra o mundo das máquinas, embora a tentação seja por demais natural, sobretudo quando o esforço aponta ao mesmo tempo, para o restabelecimento da relação com o mito. O advento do mito não causa qualquer dúvida e está já iminente. Aliás, a ordem mítica sempre está presente e ascende à superfície, na hora favorável, como um tesouro. E, no entanto, enquanto princípio heterogéneo, ele surgirá precisamente do movimento supremo levado à sua maior intensificação. Movimento, neste sentido, é apenas o mecanismo, o grito do nascimento. Não regressamos ao mito, encontramo-lo de novo…” [10]
A floresta é o reino deste processo histórico, é porto, terra natal, paz e segurança, no interior de cada um de nós. Assim esta viagem perde o carácter ameaçador, quando o indivíduo toma consciência da força divina do seu ser.
A floresta é secreta, espaço íntimo, negro, de passagem descoberta por quem perde o Medo, onde a criança se sente perdida. Dominando o Medo, dá-se o primeiro passo para a morte e depois ultrapassamo-la, chegando-se à abundância da vida, vencendo o Terror, triunfando e nascendo de novo.
O Mestre Jünger escreve, em nossa opinião neste contexto um dos mais belos parágrafos de toda a literatura mundial:
“Eis o Jardim do Éden, eis as vinhas, os lírios, os grãos de trigo das parábolas cristãs. Eis o bosque das histórias de encantar com os seus lobos devoradores de homens, com as bruxas e os gigantes, mas também onde se encontra o bom caçador, os valados de rosas da Bela Adormecida, em cuja sombra o tempo pára. Eis as florestas germânicas e celtas, como o Bosque de Esmalte, no qual os heróis subjugam a morte, e, ainda o Jardim das Oliveiras.” [11]

3º Andamento – A Nova Ordem

“O veredicto do Desterrado reza assim: «Aqui e agora» – ele é o homem da acção livre e independente.” [12]
Aquele que não se satisfaz facilmente, que é inconformista e que busca sempre mais, aquele que trás consigo uma profunda inquietação, aquele que reconhece o seu grande sofrimento, aquele que duvida e que sofre, está agora à altura de responder ao Nada. Porque sabe que a questão fundamental a si feita é endereçada à sua substância. Só ele pode agora dominar o Tempo e expulsar o Nada.
A pequena massa de elite assume o compromisso da luta, com todas as suas consequências, sabe que do inimigo não terá qualquer tipo de complacência. A decisão é firme e forte, e isto requere coragem.
A Estratégia Conservadora de Jünger assenta na passagem do ‘meridiano zero’, ultrapassando os sistemas racionalistas e materialistas, implantando-se uma Nova Ordem.
O Desterrado deve ser audaz, não aceitar a lei dos poderosos, mas sim defender-se pelos meios do seu tempo, não se limitando apenas a alvos reais, abre caminhos mais altos em épocas e colectividades futuras e não se fica apenas pela conquista do seu reino de interioridade.
Só ao Desterrado cabe a balização dos limites da sua luta, não recorrerá a actos criminosos ou terroristas, age sim de forma ética, não por respeito às leis do Estado, mas sim pelo seu profundo respeito pelo que existe de mais nobre no Ser Humano.
Esta ‘Revolução’ é universal em solo, em língua, em cultura, em tempo. A sua arma será a resistência, a paciência, a audácia, a liberdade, a pureza do Ser Humano.
Dois valores são sagrados: a liberdade individual; e a propriedade, que em circunstância alguma será colectivizável. A sabedoria está no indivíduo e não na colectividade.
A batalha é travada no ‘mundo das coisas’, mas é no ‘mundo da linguagem’ que está a força desta elite. O ‘lugar da palavra é a floresta’, é lá que o Desterrado se alia e se funde ao pensador, ao teólogo e ao poeta. É por e com esta nova linguagem que se sai do deserto.
“No seu fundo primordial, a palavra já não é forma nem chave. Torna-se idêntica ao Ser. Torna-se poder da criação. E aí está a sua força imensa, que nunca se poderá converter em moeda. Aqui apenas têm lugar aproximações. A linguagem tece em favor do silêncio, como o oásis se consagra a uma fonte. E a poesia confirma que se conseguiu entrar nos jardins intemporais.  Disso vive então o Tempo.” [13]
Porque, termina Jünger no parágrafo seguinte: “Quem escava mais fundo, alcança em qualquer deserto a camada que conduz às fontes. E com a água sobe à superfície uma nova fertilidade.”

 

Filipe Miguel Dias Cardoso 
Penafiel / Zürich
Outubro de 2004 - Maio de 2005

 

[1] Devido ao nosso não domínio da língua germânica socorremo-nos da seguinte edição portuguesa para as citações neste artigo: Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang) [1951], Cotovia, Lisboa, 1995. Com tradução e posfácio de Maria Filomena Molder [ISBN 972-8028-53-9].
[2] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 9.
[3] Ernst Jünger. Obra cit., p. 19.
[4] Idem. Idem, p. 24.
[5] Idem. Idem, p. 38.
[6] O leitor pode aperceber-se com mais profundidade desta figura na obra de Ernst Jünger. Der Arbeiter. Herrshaft und Gestalt [1932], com uma excelente tradução para a língua portuguesa de Alexandre Franco de Sá, editada pela Hugin (2000), com um esclarecedor prefácio de Nuno Rogeiro [ISBN: 972-8310-78-1]
[7] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 28.
[8] Idem. Idem, p. 32.
[9] Idem. Idem, p. 23.
[10] Idem. Idem, p. 44/45.
[11] Idem. Idem, p. 52.
[12] Idem. Idem, p. 68.
[13] Idem. Idem, p. 97.
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Tuesday, January 23, 2007

NOTAS BIO-BIBLIOGRÁFICAS DE ERNEST JÜNGER

O ‘Velho Profeta’ alemão Ernst Jünger viveu demais (102 anos, nasceu em 29 de Março de 1895, em Heidelberg e faleceu a 17 de Fevereiro de 1998, em Wilflingen) para ser um conformado, nunca o foi em toda a sua vida. Nunca esteve do lado daqueles que vencem e escrevem a História. Foi um homem privado do direito à herança, um derrotado histórico na sua contemporaneidade.
E, apesar de tudo isto, não será fácil encontrar em toda a ‘Época Moderna’ um pensamento com tanta actualidade, clareza na análise, visão dos Tempos e do desenrolar dos acontecimentos históricos, e tão profunda inquietude na eterna procura do Ser Humano.
A vida deste pensador foi, para além de longa, muito profícua. Será novamente um exercício difícil, encontrar figura par em vivência e acontecimentos pessoais. Ernst Jünger foi ele próprio um exemplo de acção do seu pensamento e aquele a quem podemos sem enganos chamar de Sábio.


Notícia Biobibliográfica de Ernst Jünger
[seguindo predominantemente as cronologias que Julien Hervier anexa aos seus Entretiens avec Ernst Jünger, Gallimard, 1986), por Rafael Gomes Filipe – Tradução, prefácio e notas a Sobre as Falésias de Mármore (Auf Den Marmorklippen), 2ª Ed., Veja, Lisboa, p. 153/160; e a que surge no posfácio por António Carlos Carvalho em A Guerra como Experiência Interior (Der Kampf als inneres Erlebnis), Ed. Ulisseia, Lisboa, p. 119/124; bem como variadas consultas na World Wide Web.]

Nacionalismo Ingénuo


1895 – 29 Março, nascimento em Heidelberg. Pai Hanôveriano e farmacêutico (Ernst Jünger), mãe Francónia (Karoline Lampl). Filho mais velho de sete irmãos. Vive em Rehburg, próximo de Hannover. Aluno mediano (1901-1913) mas apaixonado pela literatura.
1913 – Foge de casa e alista-se na Legião Estrangeira Francesa, servindo no Norte de África em Oran e Sid-Bel-Abbés (Argélia).
1914 – Completa os estudos Secundários no Instituto Gildemeister de Hannover. Alista-se como voluntário integrando o 73º Regimento de Fuzileiros Prinz Albrecht von Preussen. Em Dezembro parte para a frente da Champagne.
1915 – Ferido em Les Éparges, regressa às trincheiras na região de Artois. Promovido a Alferes.
Jogos Africanos (Afrikanische Spiele), Ed. em 1936
1916 – Em Março, chefia uma patrulha na retirada alemã do Somme, tomando posições na linha Hindenburg, em Maio. Em Junho, combate tropas inglesas e indianas. Em Julho, avança para a Flandres, defendo-se da ofensiva inglesa em Ypres. Encontra o irmão Friedrich Georg nos combates em Langemarck. Em Setembro chefia uma patrulha de combate contra os franceses, ferido e condecorado.
1918 – Ataque a posições escocesas em Écoust, é ferido. Combate o avanço inglês em Puisieux-le-Mont. Em Agosto, desesperada contra-ofensiva em Cambrai, gravemente ferido continua a lutar.
Recebe a ‘Pour le Mérite’, em 22 de Dezembro no hospital. Trata-se da mais alta condecoração alemã para Oficiais subalternos, criada por Frederico II da Prússia, sendo nos últimos anos de vida o único titular vivo.

Anarquismo Prussiano



Tempestades de Aço (In Stahlgewittern), 1ª Ed. de autor (2.000 exemplares) em 1920. [Diário de guerra, com reedição em 1922 por Mittler, Berlim]
1919 – Fim da Guerra como Alferes do Exército alemão. Serviu como Oficial no Exército da República de Weimar, do fim da guerra até 1923, habitando em Hannover.

Tempestades de Aço (In Stahlgewittern), 1ª Ed. de autor (2.000 exemplares) em 1920. [Diário de guerra, com reedição em 1922 por Mittler, Berlim]
A Guerra como Experiência Interior (Der Kampf als inneres Erlebnis), 1922.
1923 – Fim da estada no Exército alemão. Inicia estudos em Ciências Naturais, sobretudo Zoologia na Universidade de Leipzig, e recebe lições de Filosofia de Hans Driesch e de Félix Krüger.

O Bosque 125 (Das Waldchen 125), 1924.

1925 – Prossegue estudos de Zoologia em Nápoles, interrompidos em Maio de 1926, para se dedicar por inteiro à escrita. Casa com Gretha von Jeinsen em 3 de Agosto. Vive em Leipzig, colabora em revistas de círculos de antigos combatentes (como Die Standarte).
Feuer und Blut (Fogo e sangue), 1925.

Nacional – Bolchevismo

1926 – Nascimento do filho Ernst a 1 de Maio.

1927
– Vive em Berlim. Actividade polemista político nos meios da Direita Nacionalista e também Nacional-Bolchevista (com Ernst Niekisch). Até 1932 escreve nas revistas Arminius, Der Vormarsch, Widerstand, Die Kommenden, etc. Conhecimento com Ernst Von Salomon, Otto Strasser, Bertolt Brecht, Arnolt Bronnen, Erich Müsam, Ernst Toller. Ligação estreita a: Carl Schmitt, Valeriu Marcu, Alfred Kubin e Ernst Rowohlt.

1929
– Viagens à Sicília e Baleares (1932); Dalmácia (1933); Noruega (1935); Brasil e Canárias (1936), visitante frequente a Paris.
1ª Parte de Coração Aventureiro (Das abenteuerliche Herz), 1929.

1930
– Inicia correspondência com Carl Schmitt e Heidegger.
O Trabalhador (Das Arbeiter) [queda do mundo burguês; ascensão da arquitectura totalitária convergente na figura do Trabalhador, mobilizando o mundo pela técnica], 1932.

1933
– Recusa a entrada na Academia Alemã de Letras, dominada pelos intelectuais Nacional – Socialistas, bem como o convite de um lugar no Reichstag. Abandona Berlim e muda-se para Goslar.

1934
– Protesto no Jornal oficioso do Partido NDSAP Völkischer Beobachter, que publicara um fragmento de Coração Aventureiro sem autorização. Nascimento do segundo filho Alexandre.
Folhas e Pedras (Blatter und Streine), 1934.
A Mobilização Total (Die Totale Mobilmachung), 1934.
Sobre a dor (Über dan Schmerz), 1934.

Guerreiro Inconformado

1935 – Viagens pela Noruega, Brasil, Canárias, Marrocos e Rodes.

1936
– Instala-se em Überlingen (Lago de Constança).
O Coração Aventuroso (Das abenteuerliche Herz), 1938.
1939 – Instala-se em Kirchhorst (Hannover). Novo envolvimento na Guerra, é chamado pelo exército e enviado para a frente Ocidental, como Capitão.
Sobre as Falésias de Mármore, Ed. em 1939. [narrativa mítica e visionária que descreve a destruição de um lugar de grande civilização por um ditador bárbaro]
1941 – Destacado para o Comando alemão em Paris. Vida mundana, encontros com escritores e artistas, museus, antiquários e livreiros (Braque, Céline, Cocteau, Gaston Gallimard, Giraudoux, Sacha Guitry, Jouhandeau, Léautaud, Montherlant, Morand, Paulhan e Picasso).
A Paz (Der Friede), 1941.

Jardins e Estradas (Garten und Strassen) [Diários parisienses de 1939-1940], 1942.

1942/43 – Visita a frente do Cáucaso, como inspector do exército.
1944 – Em Fevereiro o filho Ernst é preso por actividades de oposição ao regime e condenado a servir numa unidade de assalto da frente da Itália, sendo morto em Carrara, a 29 de Novembro.
Tem conhecimento da preparação embora não tendo participação no atentado falhado a Adolf Hitler em Stauffenberg (20 de Julho), é afastado do Exército e retira-se para Kirchhorst.

1945
– Perante o avanço dos Aliados, organiza a resistência local (Volkstum - Milícia territorial). No ‘processo de desnazificação’ da Alemanha torna-se injustamente um escritor banido.

Anarquista - Conservador



1948
– Instala-se em Ravensburg, perto do Lago Constância.
Diários (1939-1948) (Strahlungen), 1948
1949 – Encontra-se com Heidegger e colabora com o ensaio Passagem da linha (Über die Linie) no volume de comemoração dos 60 anos do Filósofo.
Experiências com drogas.
Drogas, Embriaguez e outros Temas (Annäherungen, Drogen und Rausch), Ed. em 1971.
1950 – Instala-se em Wilflingen (Suábia).
O Passo da Floresta (Der Waldgang), 1951.

1955
– Recebe os prémios literários de Bremem e de Goslar.
Abelhas de Vidro (Gläserne Bienen), 1957. [ficção científica sobre o poder da técnica]
1959 – Funda a revista Antaios, sendo seu co-editor juntamente com Mircea Elíade, até 1971.
O Muro do Tempo (An der Zeitmauer), 1959. [reflexão o Tempo e a História]

1960
– Morte da Mulher.
O Estado Universal (Der Wetstaat), 1960. [ensaio político]
1962 – Casa com Liselotte Lohrewr. Viagens ao Egipto, Sudão, Sinai, Áustria e Espanha.

1964
– Recebe o Immermann Prize. Viagens à Grécia e Noruega.

1965
– Conclui a publicação da 1ª edição das suas obras completas, em dez volumes. Faz cruzeiro pela Ásia Oriental.

1966
– Visita Portugal (Lisboa) e Angola.

1967
– Experiências Entomologistas.
Caçadores Subtis (Subtile Jagden), 1967. [meditação sobre as belezas da natureza]

1969
– Viagens por Marrocos, Canárias, Creta, Nice, Tunísia, Turquia, Sri Lanka, Djerba, Agadir, Libéria e Sicília. Dedica Volantes (Federballe) aos 80 anos de Heidegger.
Philémon e Baucis. A morte na civilização técnica e na civilização mítica (Philemon und Baucis. Der Tod inder technischen und in der mythischen welt), 1972.
A Fronda (Die Zwille), 1973.
Eumeswil, 1977.

Pensador Solitário, Pregador da Paz


1978 – Viagens a Malta, Avignon e Nice.

1979 – Viagens pela Libéria, Grécia e Paris.
Revela-se um forte apoiante da Europa Unida e um promotor dos direitos humanos. Recebe a Medalha da Paz da Cidade de Verdun.

1980 – Viagens pela Grécia, Singapura e Rodes.

1981 – Recebe a Medalha de Ouro da Humboldt Society.

Setenta Apaga-se (Siebzig verweht, [Diários], 1981.

1982 – Prémio Goethe da cidade de Frankfurt. Borges visita-o.

1983 – Visita de Alberto Morávia. Viagem a Portugal.

O Problema de Aladino (Aladins Problem), 1983.

1984 – Ao lado do Presidente François Mitterrand e do Chanceler Helmut Kohl, homenageia as vítimas das duas Grandes Guerras, em Verdun, aquando das festas em honra da reconciliação franco-alemã. Em Paris, o Senado convida-o a condecorar um veterano da Grande Guerra.

O Autor e a Escrita (Autor und Autorschaft), 1984. [análise da nossa civilização]

1985 – Condecorado com a Grã-cruz de Mérito da R.F.A. É criado o prémio Ernst Jünger de Entomologia. Recebe visitas de Mitterrand e Kohl.

Um Encontro Perigoso (Eine Gefährliche Begegnung); Contos Escolhidos (Augewählte Erzählungen), 1985.


Ficcionista Visionário

1986 – Viagens à Malásia, Samatra e Cantão de Tessin. Recebe a Bayerischer Maximilianorden das artes e das ciências, e o Prémio Mediterrâneo.

1987 – Recebe o Prémio Tevere.

1988 – Participa nas comemorações, em Paris, do 25º aniversário do acordo franco-alemão.

Sob o Signo de Halley (Zweimal Halley), 1987.

1989 – Feito Doutor honoris causa da Universidade do País Basco (Bilbau). Visita Madrid e as Ilhas Maurícias.

1990 – Visitado por Felipe Gonzalez. Recebe o Prémio de Arte da Alta Suávia. Viagens a Lascaux, Toulouse, Montpellier, Paris, Suiça e Creta.

As Tesouras (Die schere); Saltos no Tempo (Zeitsprunge), 1990.
1993 – O Presidente da França Mitterrand recebe-o como hóspede no Eliseu. Recebe o Grande Prémio da Arte da Bienal de Veneza. Suicídio do filho Alexander.

1995 – O seu centenário de vida é assinalado internacionalmente.

1996 – Instala-se por 4 semanas no Escorial e é feito Doutor honoris causa da Universidade de Madrid.

1998 – Falece a 17 de Fevereiro, com quase 103 anos de idade em Wilflingen.



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Friday, January 19, 2007

TRATADO CONSTITUCIONAL EUROPEU (Cap. VII)

VII. Cientes de que os Estados-Nação emergentes do ‘Jacobinismo revolucionario’, são hoje demasiado grandes para administrar os problemas pequenos, e demasiado pequenos para responder aos problemas grandes. Num mundo globalizado, só grandes conjuntos civilizacionais serão capazes de resistir à influência de outros.
Assim pensamos que a Europa, frente aos EUA e outros conjuntos agora emergentes, deve construir-se numa base federal, que reconheça a autonomia de todos os Estados e organize a cooperação entre as regiões e as Nações que a constituem, sendo uma soma, e não uma negação das suas culturas históricas.
Somos contra uma Europa burocrática e tecnocrática, reduzida a um espaço unificado de livre trânsito, contra a soma de egoísmos nacionais que não previnem o retorno das guerras, e contra uma ‘Europa Nação’ decalcada dos EUA.
A construção europeia, em nosso entender, deve começar pela base, onde cada nível terá as suas funções e dignidade, que não derivam de uma instância superior, mas sim baseada na vontade e no consentimento de todos. Seguindo este pensamento, no Tratado em discussão en-ontramos esta cadeia de poderes consagrada, remetendo-se para um nível máximo e supra-nacional apenas os domínios relativos ao conjunto dos povos e comunidades da União. Nomeadamente: diplomacia, defesa, grandes decisões económicas, normas jurídicas fundamentais, ambiente, investigação, indústria e novas tecnologias.
Nós acreditamos no projecto da União da Europa, porque concordamos com a primazia dada aos valores da paz, dos direitos humanos, do desenvolvimento sustentado e atento à herança ambiental. Porque é um caminho da reafirmação e valorização das várias identidades e realidades da Europa, assumindo esta definitivamente o seu papel de actor determinante na cena internacional.
Finalmente porque para nós, Portugueses em particular, trata-se de uma oportunidade única de relançamento do nosso próprio projecto nacional. Como o Presidente Jorge Sampaio sintetizou: “…os portugueses, formando uma das mais antigas nações com uma identidade cultural forte, aberta aos outros e com vocação universalista, encontraram na Europa um espaço privilegiado de valorização da diversidade e de afirmação da sua identidade.”(14)
Nós somos pelo SIM porque acreditamos na Europa, no que ela foi, no que é, e naquilo que representa para a Humanidade. Dizer SIM é sem receios dizer SIM à Europa Unida e comprometida, com futuro, com força, com tudo o que deve ser conservado e o que deve surgir em cada europeu, em cada região e em cada Nação europeia.
Ao Tratado que estabelece uma Constituição para a Europa, nós respondemos: – SIM! Não porque no fim do espectáculo nos pedem: – Plaudito, cives! Como no fim de uma representação de comédia romana, pediam os actores os aplausos do público. Mas com convicção e responsabilidade, por um crítico, mas sincero pensamento, descomprometido com maiorias ou poderes estabelecidos.

 

 
Penafiel/Porto,
Janeiro – Abril de 2005.


 

(14) Jorge Sampaio. Tratado Constitucional Europeu: Um desafio para a Europa, uma oportunidade para Portugal. In Relações Internacionais, n.º 5 – Março de 2005, p.8. IPRI – Universidade Nova de Lisboa, Lisboa.
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Thursday, January 18, 2007

TRATADO CONSTITUCIONAL EUROPEU (Cap. VI)

VI. A forma de legitimação política desta Constituição Europeia tem sido largamente debatida, mais ainda que o próprio conteúdo. Isto devido ao facto de ser evidente a todos os protagonistas, que existe um défice legitimador e uma dívida para com os povos dos Estados-membros, que se verifica deste o início do projecto europeu. Alguns Estados irão ratificar (de carácter obrigatório, para ter efeito jurídico) o Tratado através dos parlamentos nacionais, outros sentem-se na obrigação de consultar directamente o povo, como em Portugal, através de um referendum.
Em Portugal, para que a decisão do referendum tenha efeito vinculativo, terá que se registar uma afluência em número de votantes superior a metade dos eleitores inscritos. (12) O eleitorado deve pois tomar consciência da importância da questão posta, para que a resposta seja assumida com conhecimento e responsabilização plena, já que se tratará de facto de um referendo constitucional, mesmo em Portugal e apesar da proibição da Constituição Portuguesa (13).
O problema do referendum é muito mais político do que jurídico, assumindo-se sobretudo como uma superioridade da ordem jurídica de cada Estado, onde o povo de cada um, autoriza o sacrifício de parte da sua soberania, aceitando a orgânica e as competências da União contidas no Tratado.
Para que a construção europeia tenha cada vez mais êxito, pensamos que devemos incorporar sob a forma de cidadania – Cidadania Europeia, todo o sentimento de pertença e união à matriz histórica do espaço europeu. Trata-se de um outro tipo de cidadania, diferente da nacional (que deve ser mantida e aprofundada), será como o descobrir de uns velhos elementos da nossa família, que não substituem os que sempre tivemos na nossa ‘casa’.
Ao valorizarmos a nossa identidade nacional e a nossa História como povo, e conjuntamente com o aprofundar dos velhos laços com todos os europeus, estaremos a criar uma nova ‘cidade’, mais ampla e forte para as gerações futuras, da qual nos poderemos sentir orgulhosos.


 

(12) Constituição Portuguesa, art. 115º, II.
(13)Idem, art. 115º, 4 a); 161º n) e 164º d).
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Tuesday, January 16, 2007

TRATADO CONSTITUCIONAL EUROPEU (Cap. V)

V. Vários autores são da opinião que a União Europeia se fechou sobre si própria e que na ausência de projectos políticos, produziu um documento que pretende ser muito mais do que, na realidade é. Entre eles encontra-se Ralf Dahrendorrf (8) que aponta assuntos mais importantes por resolver, como a consolidação do mercado único e a correcção de atrasos e incompatibilidades existentes nas fronteiras da União agora alargada, na Europa de Leste e nos Balcãs. (9)
 
Dahrendorrf defende que aqueles que acreditam na verdadeira Europa devem: baixar a fasquia; e dar mais relevo à ‘Europa real’, resumindo afirma: “…a ordem do dia deveria ser menos preocupação abstracta sobre a identidade europeia e mais acções concretas para defini-la em actos e não em símbolos”. (10)
Se quanto à primeira saída (“…baixar a fasquia”) nos parece revelar falta de coragem e verdadeiro empenho na construção europeia, aliás em conformidade com a habitual posição britânica. À segunda saída opomos o nosso pensamento, pois embora com sentido pragmático, consideramos importante a prática e os factos concretos, estes não podem contudo anular os símbolos.
Nós que somos da Tradição (11) acreditamos numa dupla acção humana – Exotérica (no plano temporal e material) mas também, e sobretudo Esotérica (no plano interno, das causas profundas e secretas), procuramos interpretar as metas mais nobres do Homem e consideramos a leitura dos símbolos do passado importantes, bem como uma cuidada perpetuação destes para o futuro. Por isso, é partindo dos símbolos que sabemos quem somos, e construímos melhor o futuro, através das acções concretas.
Este é o debate que pensamos estar a ser feito, e bem porque à Europa fazem falta os símbolos, pela razão simples de que estes sempre fizeram parte dela, e são o que na sua profunda identidade a definem. Considerá-los numa constituição é o caminho correcto.
Também, não deveremos pôr o material e o económico à frente de qualquer outra questão de fundo. Esta prática tem ‘epidemizado’ a construção europeia, e até agora os resultados não têm sido bons. Mais ainda com o recente alargamento a dez novos Estados, correremos o risco de nos diluir num vasto mercado económico.
Deve-se dar lugar ao primado do Político, só assim, elevando as discussões e os discursos, se dará grandeza à Europa e se abrirá um caminho novo no horizonte individual de cada europeu.


 

(8) Ralf Dahrendorrf, Membro da Câmara dos Lordes britânica, foi reitor da London School of Economics e director do St. Anthony’s College, em Oxford.
(9) Ver artigo Jornal Público, p.10, de 17.07.2004, exclusivo Público/Project Syndicate/Institute for Human Sciences.
(10) Ralf Dahrendorrf, art. citado.
(11) O Pensamento Tradicional baseia-se na unidade transcendental do universo e faz uma leitura deste, do Homem e dos tempos tendo como valores o sagrado, a ordem e a hierarquia natural das coisas.

 

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