ENCONTRAR AS RAÍZES: AS FRAGAS DE PANÓIAS
Há lugares onde nos sentimos mais próximos das nossas raízes, por razões enigmáticas, algo de telúrico existe aí que desperta zonas aparente-mente adormecidas do nosso Ser. As Fragas de Panóias é um desses sítios.
Panóias é um sítio ermo e bravio, situado na aldeia de Assento, na freguesia de Vale de Nogueiras (Vila Real). A apenas 7 km da capital trasmontana, Panóias guarda ainda hoje vestígios das Religiões dos nossos passados e é no seu género um dos mais marcantes legados da antiguidade luso-romana ainda existentes em Portugal. Testemunha por isso a elevada romanização da região cujo ponto estratégico foi as minas de ouro na serra da Padrela. Apesar do seu enquadramento numa crescente envolvente urbana mantém pela sua singularidade, monumentalidade e simbolismo associado, um lugar de destaque no património nacional.
[Consultar a figura 1, do Albúm com título Fragas de Panóias, na barra lateral deste blog, para sua localização e enquadramento Ibérico.]
As Fragas de Panóias ou Santuário de Panóias é um Sítio com protecção legal por parte do Estado português como Monumento Nacional desde 16.06.1910, trata-se de um Santuário rupestre galaico-romano provavelmente construído entre finais do séc. II e os inícios do séc. III d.C., por ordem de Gaius C. Calpurnius Rufinus, senador e alto funcionário do governo provincial romano, que terá introduzido o culto especialemnete a Serápis, em local onde já haveria um culto indígena.
De um modo geral, o recinto, que se encontra vedado desde 1985, distingue-se pela conservação de três (entre outras) grandes fragas (rochedos de granito) nas quais estão cavados tanques de formato rectangular e pias circulares, possuindo inscrições dedicadas a deuses indígenas, romanos e orientais. Quatro destas são consagradas por Gaius C. Calpurnius Rufinus, sendo igualmente mencionados os Lapiteas, possivelmente os habitantes desta área, encontrando-se estas inscrições num mesmo rochedo, situado na extremidade Sul do santuário. São ainda visíveis em três rochedos os entalhes para o assentamento dos alicerces dos templos que se deverão ter erguido sobre estes, tipo de estruturas aliás referidas em duas inscrições, bem como orifícios circulares de possíveis gonzos de portas, possuindo o penedo da extremidade Norte escadas para acesso à plataforma superior onde se encontram as estruturas. Particularmente, este rochedo com uma altura de cerca de 3,5 m e em local que domina o conjunto da esplanada, tem a particularidade de apresentar uma disposição dos tanques que denuncia uma sobreposição de estruturas, num momento mais avançado da utilização do sítio.
Desde o séc. XVIII, Panóias tem sido objecto de estudo até aos nossos dias, por vários autores. Remonta a 1721, quando António Gonçalves de Aguiar levou a cabo a Relação da freguesia de S.Pedro de Valnogueiras, a 1ª referência na literatura a Panóias. Aí se descrevem as rochas e as cavidades que nelas se vêm, e as inscrições aí conservadas. Jerónimo Contador de Argote apresentou, em 1732, uma descrição grandemente apoiado em A. Gonçalves de Aguiar. Também J. Leite de Vasconcellos, que em inícios do séc. XX foi um incansável investigador da Etnografia e Arqueologia da Lusitânia, estudou Panóias.
De facto, para todos os estudiosos sempre foi evidente que em Panóias havia tido lugar um culto, segundo parece originalmente indígena, posteriormente aplicado a várias divindades, entre elas Serápis.
Á luz da corrente interpretação de todo o conjunto de Panóias, poderemos estabelecer um percurso, ao mesmo tempo que se fazem interagir todos os elementos. De facto foi o Prof. Géza Alföldy (1), em 1990, que estabelecendo uma nova leitura das inscrições, baseando-se na relação entre estas e a disposição espacial e estrutural de toda a Area Sacra, fixou o culto que aqui teria lugar, os seus momentos e o seu itinerário, que agora seguiremos ao longo deste texto [observar para tal a figura 2 - ver Albúm com título Fragas de Panóias, na barra lateral deste blog].
Destacando de toda a Area Sacra três fragas identificadas sequencialmente (I, II, III), situando-se a fraga I à entrada do recinto, seguindo-se a fraga II e mais a Norte no alto da colina encontramos a fraga III. Todos estes fragões apresentam cavidades, mas as inscrições conhecidas concentram-se em volta da fraga I [ver figura 3].
O primeiro ponto neste itinerário situa-se a uns 6/7 m para Este da fraga I, no lado direito do caminho a seguir desde a entrada, aí estaria até à sua destruição no séc. XIX, um texto gravado sobre uma pequena rocha orientado para a fraga I. Sistematizada como a Inscrição nº 1, que a partir da tradição se pode reconstruir do modo seguinte:
Aos Deuses e Deusas deste recinto sagrado. As vítimas que se sacrificam, se matam neste lugar. As vísceras queimam-se nas cavidades quadradas em frente. O sangue verte-se aqui ao lado sobre as pequenas cavidades. Estabeleceu isto Gaius C(—) Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial.
O mystes teria que matar a vítima na rocha pequena e verter o sangue nas pequenas cavidades (2) que se vêm claramente. Mas quanto às vísceras, o mystes teria que as queimar (‘em frente’), i.e., teria que ir para a fraga I onde se observam as mencionadas cavidades quadradas.
Todas as restantes inscrições encontram-se esculpidas na face vertical da fraga I, que é muito extensa, e para o qual se sobe por quatro degraus. Subindo por esta escadaria situada no lado setentrional, partindo desde a rocha com a Inscrição nº 1, antes de subir ao topo da fraga I, o mystes passava pela Inscrição nº 2:
Calpurnius Rufinus consagrou o templum (recinto sagrado) uma aedes (um santuário) dedicado aos Dii Severi, locati – fundada aqui – evidente por ele mesmo.
Á frente desta inscrição é hoje ainda possível reconhecer os vestígios das fundações da dita aedes. Nesta altura do itinerário o mystes era advertido que os deuses deste templo eram os Dii Severi, os deuses dos infernos, e que esta aedes era o seu templo. Ao subir à superfície da fraga o mystes teria que queimar as vísceras nestas quadrata, referentes às cavidades rectangulares com vestígios de fogo que aí se observam, conforme as instruções da Inscrição nº 1.
Daí o mystes passava pela escadaria à plataforma situada à frente da fraga e passava ao seu lado Oeste e à Inscrição nº 3:
Aos deuses e deusas e também a todas as divindades dos Lapiteae Gaius C(—) Calpurnius Rufinus, membro da ordem senatorial, consagrou junto com este recinto sacro para sempre uma cavidade, aonde se queimam as vítimas segundo o rito (3).
Isto confirmava que o lacus, a cavidade (4) que se encontra sobre a inscrição, uma das quadrata, serve para a incineração das vísceras.Também a inscrição diz que o templum não está dedicado somente às divindades já conhecidas nas anteriores inscrições, mas também aos numina dos Lapitae, sem dúvida os deuses da comunidade indígena de Panóias.
Mais à frente no mesmo lado Oeste chegamos à Inscrição nº 4:
Ao altíssimo (deus) Serapis, por favor da sorte e dos mysterios (em que está iniciado), G. C. Calpurnio Rufino, atendido, como foi, no voto que fizera, (dedicou este monumento). (5)
O Senador consagrou o recinto sagrado à divindade principal dos deuses do inferno, ao Altíssimo Serápis, incluindo uma gastra e mystaria. A gastra (cavidade redonda)(6) visível na rocha situada imediatamente detrás da inscrição. A sua função nos mistérios devia ser a de assar a carne das vítimas, que o mystes comia aqui, frente ao nome da divindade altíssima. Este era o acto principal da iniciação, como se deduz por comparação de outros mistérios.
J. Leite de Vasconcellos considerou preciosa a aplicação da palavra mystaria (mysterios) ao culto de Serápis, este é identificado com a suprema divindade helénico-romana do céu, pois a ele se aplica o epíteto de altíssimo e os de o(ptimus) e m(aximus) que são habituais de Júpiter.
A Inscrição nº 5 indica o acto final; nesta cavidade – ao contrário das anteriores sem vestígios de fogo – encontramos directamente por trás da inscrição, onde o mystes se purificava com sangue, da grasa? e dos … com que se havia manchado.
Conclui-se que se trata de um ritual de iniciação que se apresenta com uma ordem e um itinerário muito claro: a matança das vítimas; o sacrifício do sangue nas cavidades pequenas para as divindades dos infernos; a incineração das vísceras como presente aos deuses; o consumo da carne da vítima como acto principal da iniciação, combinado com a revelação do nome do dono máximo dos infernos, o Altíssimo Serápis; e por fim a purificação.
Podemos supor que noutros sítios do recinto, sobretudo na aedes dos Dii Severi e na aedes da fraga II, a iniciação repetia-se num grau mais elevado. O lugar mais importante foi seguramente a fraga III, onde existiu também uma aedes assente em cavidades dentro e fora da fraga, maiores que todas as outras, pois correspondiam ao tamanho de um sepulcro. Aqui teria lugar o acto principal das iniciações, segundo parece: a morte ritual do mystes, sua sepultura e por fim a sua ressurreição.
Já em 1913 J. Leite Vasconcellos rejeitava a tese do uso industrial destas cavidades, como alguns autores chegaram a defender afirmando que: “…esta hypothese não a posso aceitar, porque todos os grupos de cavidades deviam relacionar-se entre si, visto ellas estarem proximas umas das outras; se ninguem duvida do caracter religioso de umas, demonstrado nas suas inscrições, as restantes proclamam caracter analogo.” (7)
Todas as inscrições descritas se identificam como partes de uma lex sacra, mas aplicadas a Panóias em concreto. Ao mesmo tempo, os extractos da lex sacra estão incorporados no contexto de uma inscrição votiva que menciona os nomes das divindades honradas para além do nome e estatuto do dedicante.
A Inscrição nº 4 é bilingue, em latim e grego, o grego explica-se por o deus ter procedência alexandrina, e o nome do dedicante está em latim, por este ser romano, ou lusitano romano.(8)
Assim a língua original do templo foi o grego, mas o uso da palavra mystaria em vez de mysteria indica um dialecto dórico ou pseudo-dórico. Os dados sobre a sua origem permitem supor com grande probabilidade que seja Perge de Panfilia, cidade de tradição dórica e um dos centros do culto de Serápis, situada na Ásia Menor.
Panóias pode ser portanto considerado um Serapeum, apesar de se venerarem aí várias divindades «os deuses adorados no mesmo templo» (9),e onde Serápis é identificado, neste templo, como a suprema divindade helenico-romana do céu, deus dos deuses ’severos’ ou dos infernos, e cujos rituais possuíam forte influência oriental, em especial na Ásia Menor, onde se encontram vestígios desse culto.
Segundo alguns tratados mitológicos, Serápis, é uma divindade greco-egípcia. Quanto à sua genealogia, pensa-se tratar-se de uma forma mista dos deuses egípcios Osiris e Ápis, que conjugados pela morte daquele, dariam origem ao deus Úserápis, que os gregos escreveram Serápis.
Ísis e Serápis receberam culto na Itália, pelo menos já na primeira metade do séc. II a.C. Em Roma, só em dias de Nero o Estado romano os reconheceu; então se restauraram ou santificaram templos antigos, se construíram outros novos, e se celebraram publicamente as festas egípcias.(10)
J. Leite de Vasconcellos refere que os cultos a Ísis e Serápis, entre todos os cultos orientais implantados na Lusitânia, que tiveram aqui o maior florescimento no séc. II d.C., foram os que deixaram maior número de monumentos distribuídos desde o Algarve até Trás-os-Montes.(11)
(1) Conjuntamente com Th. Hauschild e apoio do Intituto Arqueológico Alemão (cf. Biblio.) (2) J. Leite de Vasconcellos comparou estas pias e tanques com os que observara em 1909 no pátio do Templo duplo de Kom Ombos no Alto-Egipto, que serviriam para cerimónias religiosas, e também com as fossas em que se recebia o sangue e os ossos das vítimas nos sacrifícios a Mithra. [J. Leite de Vasconcellos. Religiões da Lusitânia, Vol. III, p. 470.] (3) J. Leite de Vasconcellos fez a seguinte leitura, em tudo idêntica: G. C. Calpurnio Rufino consagrou, com este templo, aos deuses e às deusas, e a todos os nomes em geral, e também aos dos Lapiteas, um tanque perpetuo (ou indestructível), onde as vítimas se queimam segundo o voto [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 468]. (4) Esta pia rectangular tem as dimensões de 91 por 60 cm e com 39 cm de profundidade [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 470]. (5) Segundo a leitura que Leite Vasconcellos apurou in loco [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 346]. (6) Esta pia circular tem 55 cm de diâmetro, cerca de 40 cm de profundidade e dista 61 cm da Inscrição nº 4 [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 470]. (7) J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 474. (8) Idem. Idem, p. 347. (9) Idem. Idem, p. 350/351. (10) Idem. Idem, p. 341. (11) dem. Idem, p. 352. Como chegar: Partindo do centro de Vila Real pela N322 em direcção a Sabrosa. Percorrendo 3 km, no fim de Abambres, virar à esquerda no cruzamento para Sabrosa, passando pela entrada do Palácio de Mateus à direita. Ao km 6, no fim de Constantim, virar à esquerda no cruzamento (indicação de 1 km Panóias), seguindo pela EN578. Ao km 7 seguir à direita o sinal amarelo indicativo de Panóias. Chegada ao parque de estacionamento junto à cerca. Informações: ¸ 09-12:30/14-17h [ter.-sex.] Ü 1,5€ Normal ) +351 226 179 345 F +351 226 197 080 [visita guiada]
(1) Conjuntamente com Th. Hauschild e apoio do Intituto Arqueológico Alemão (cf. Biblio.) (2) J. Leite de Vasconcellos comparou estas pias e tanques com os que observara em 1909 no pátio do Templo duplo de Kom Ombos no Alto-Egipto, que serviriam para cerimónias religiosas, e também com as fossas em que se recebia o sangue e os ossos das vítimas nos sacrifícios a Mithra. [J. Leite de Vasconcellos. Religiões da Lusitânia, Vol. III, p. 470.] (3) J. Leite de Vasconcellos fez a seguinte leitura, em tudo idêntica: G. C. Calpurnio Rufino consagrou, com este templo, aos deuses e às deusas, e a todos os nomes em geral, e também aos dos Lapiteas, um tanque perpetuo (ou indestructível), onde as vítimas se queimam segundo o voto [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 468]. (4) Esta pia rectangular tem as dimensões de 91 por 60 cm e com 39 cm de profundidade [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 470]. (5) Segundo a leitura que Leite Vasconcellos apurou in loco [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 346]. (6) Esta pia circular tem 55 cm de diâmetro, cerca de 40 cm de profundidade e dista 61 cm da Inscrição nº 4 [J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 470]. (7) J. Leite de Vasconcellos. Obra cit., Vol. III, p. 474. (8) Idem. Idem, p. 347. (9) Idem. Idem, p. 350/351. (10) Idem. Idem, p. 341. (11) dem. Idem, p. 352. Como chegar: Partindo do centro de Vila Real pela N322 em direcção a Sabrosa. Percorrendo 3 km, no fim de Abambres, virar à esquerda no cruzamento para Sabrosa, passando pela entrada do Palácio de Mateus à direita. Ao km 6, no fim de Constantim, virar à esquerda no cruzamento (indicação de 1 km Panóias), seguindo pela EN578. Ao km 7 seguir à direita o sinal amarelo indicativo de Panóias. Chegada ao parque de estacionamento junto à cerca. Informações: ¸ 09-12:30/14-17h [ter.-sex.] Ü 1,5€ Normal ) +351 226 179 345 F +351 226 197 080 [visita guiada]