Friday, March 16, 2007

13.03.2007 - CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE MIRCEA ELÍADE


O Destino tem destas coincidências…após a recente e estimulante leitura de dois livros de Elíade, “L’Epreuve du Labyrinthe “e “O Romance do Adolescente Míope” obras que abordam uma faceta mais intima da vida do autor, e no seguimento de uma investigação referente a Georges Dumézil, constatamos que o centenário de Mircea Elíade se comemorou no passado dia 13 de Março.
Também a Urgrund não pode deixar passar em branco a comemoração desta efeméride, prestando assim homenagem a uma das figuras de topo da cultura europeia do século XX. Historiador das religiões e homem de letras, distingue-se pelas suas investigações no campo da linguagem simbólica utilizada por diversas tradições religiosas, e subsequente tentativa de limitar o seu significado através do destaque dos mitos primordiais patentes na génese dos fenómenos místicos. Considerava as experiências religiosas como Hierofanias (Manifestações do Sagrado no mundo). Dedicou a sua longa carreira ao estudo da evolução e metamorfoses destas manifestações ao longo dos tempos e através de várias culturas.

Nasceu em Bucareste, a 13 de Março de 1907, cedo se interessou pelo estudo da Biologia e da Química, possuindo inclusive um pequeno laboratório. Leitor inveterado, aumentou o seu tempo de leitura reduzindo as horas de sono para apenas cinco a seis por noite.
Em 1925, com 18 anos ingressa na Universidade de Bucareste onde estudou Filosofia. Durante o decorrer de uma investigação levada a cabo em Itália onde pretende reunir materiais sobre Giordano Bruno, Marsílio Ficino e o Humanismo Renascentista, acaba por tomar conhecimento da obra “A History of Indian Philosophy“, de Surendranath Dasgupta (1885-1952), ficando muito impressionado com a leitura da mesma. Acabará por contactar Dasgupta com o intuito de se deslocar a Calcutá, onde permanece entre 1928 e 1931, dedicando-se ao estudo da Filosofia e do Sânscrito. Após algumas atribulações de carácter amoroso, permanece no Ashram de Rishikesh, nos Himalaias durante seis meses.
Em 1932 regressa á sua Roménia natal onde apresenta a sua tese de Doutoramento intitulada “Essai sur les origines de la mystique indienne”, no decurso do ano de 1933. Nomeado professor assistente de História das Religiões e Filosofia Indiana, permanece em Bucareste entre 1933 e 1939.
Em 1940 viaja para Londres, onde desempenha o cargo de adido cultural da embaixada romena, desempenhando posteriormente as mesmas funções em Lisboa de 1941 a 1944. No nosso país interessa-se por Sá de Miranda, Camões e Eça de Queiroz, organiza tertúlias e empenha-se no estabelecimento de elos mais fortes entre os latinos do Ocidente e do Oriente, impulsionando traduções, conferências e concertos. Escreve “Os Romenos, Latinos do Oriente“, uma síntese histórica, cultural e espiritual do seu país, e “Salazar e a Revolução Portuguesa“, livro em que defende que o general Antonescu, no poder em Bucareste, se poderia inspirar no regime português para criar um Estado autoritário mas não totalitário. No seu “Diário Português“, obra inédita até 2001, Elíade mostra-se por vezes crítico, embora não hostil a Portugal, país que considera periférico, um pouco à margem da história e da cultura.
Após a II Guerra Mundial, é impedido de regressar à Roménia comunista, devido à sua ligação a Ionescu. Em 1945, parte para Paris, onde o facto de ter conhecido Georges Dumézil, lhe garantiu um emprego a tempo parcial na École des Hautes Études de Sorbonne, ensinando Religião Comparada. A partir desta época Elíade opta pela redacção dos seus trabalhos em língua francesa. Eugène Ionesco e Georges Bataille, contam-se entre as suas amizades durante o período francês.
Mircea Eliade morreu em 1986, aos 79 anos, em Chicago, nos Estados Unidos, onde residia desde 1958, data em que foi convidado para dirigir o departamento de Religião da universidade daquela cidade, tendo-se posteriormente naturalizado norte-americano.


Alguns críticos “revisionistas”, arautos de uma certa intelectualidade bem pensante tentam “diabolizar” a figura maior que foi Elíade (assim como o fizeram com Dumézil, Pound, Knut Hamsun, Cioran entre muitos outros), numa tentativa vã e desonesta de desacreditar todo o trabalho de uma vida, acusando-o de ter sido Fascista, próximo do líder da Guarda de Ferro Romena, Corneliu Codreanu (ver o nª 266 da Prestigiada revista francesa L’Histoire, “Cioran, Elíade, Ionesco. Trois Roumains et le Fascisme”, por Michel Winock e A.Laignel-Lavastine, “Cioran, Eliade; Ionesco. L’oubli du fascisme”, Paris, PUF, 2002).
Para o leitor mais interessado nos aspectos biográficos deste vulto permitimo-nos sugerir: O Romance do Adolescente Míope e A Provação do Labirintoambos editados em Portugal pelas Publicações D. Quixote.
Júlio Mendes Rodrigo/Março 2007
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Thursday, February 22, 2007

APROXIMAÇÃO NÃO MONÓTONA A ‘O PASSO DA FLORESTA’ DE ERNST JÜNGER: UMA ESTRATÉGIA DE ACÇÃO CONSERVADORA


A obra de Jünger Der Waldgang [1] situa-se na procura incessante da resistência e de caminhos que conduzam à liberdade Humana, vejamos:
‘O passo da Floresta’ é o ensaio obrigatório e fundador para todos os que querem penetrar no pensamento de Jünger. É onde se esclarece o problema e se indica uma estratégia para o debelar, mas avisando-se que o caminho é difícil, duro, tumultuoso e possivelmente mortal. Trata-se de um caminho de cada Ser Humano individualmente. De sentir o ‘chamamento e partir para a floresta’ por passos lentos mas sólidos, como são sempre os de um verdadeiro Homem Livre…
Ao leitor é esperada uma disponibilidade total, mente aberta e inconformista, mas que seja livre no seu arbítrio e solitário na sua caminhada.
Podemos, para uma mais fácil organização de ideias, encarar Der Waldgang como uma obra em três andamentos:
No 1º Andamento (Cp. 1-7) são identificadas as questões do nosso tempo – o «Aqui e Agora», que nos são dirigidas constantemente. Constata-se a imposição do «Isto e Aquilo», da limitação da liberdade e de dizer Não, e do risco de um entre cem indivíduos o fazer.
No 2º Andamento (Cp. 8-25) surge a figura do Desterrado, aquele que adopta um Caminho e decide lutar pela sua liberdade e independência e dá ‘O passo da floresta’. Fá-lo numa época de catástrofes onde mesmo em minoria os Homens podem ser poderosos, porque se encontram a si próprios na sua essência indivisível e indestrutível.
Passando dos sistemas racionalistas e materiais, i.e. do Deserto, através do processo de purificação na floresta, dá-se os últimos passos, e ultrapassando a ‘linha do meridiano zero’ chega-se a uma Nova Ordem, ultrapassando um movimento espiritual niilista. Neste 3º Andamento (Cp. 26-34) o Desterrado decide pela sua consciência e não de acordo com doutrinas, mas respeitando as leis, identificando-se com uma Estratégia Conservadora. A sua busca torna-o invulnerável e nele nasce a resposta para as questões do mundo.

1º Andamento – «Aqui e Agora»; Aproximação ao problema

Logo na abertura Jünger avisa que estamos perante um problema complexo e que a ele nos iremos aproximar por uma nova abordagem e pela formulação de um modelo inovador. A interpretação, resolução e solução final do exercício será efectuada descontinuamente no tempo, individualmente, sem truques ou atalhos. Todo o percurso será fruto de uma dinâmica com um movimento muito significativo, resultante de uma energia nova e poderosa.
“O passo da Floresta – atrás deste título não se esconde qualquer idílio. O leitor deve, antes, apreendê-lo como um excurso grave, que excede não só os atalhos já abertos, como também os limites da contemplação.” [2]
A formulação do problema e a análise das condições existentes é o primeiro passo, mas antes devemos ter em conta uma premissa: a de que são vários os problemas do Homem. Vários e mutáveis na essência, e contudo sempre presentes. O que se verifica é que quando somos chamados a responder não é suposto que tenhamos de facto algo a dizer e mesmo que tenhamos é dado valor nulo ao nosso contributo. Jünger chama o leitor ao problema de uma forma surpreendente dando o ‘exemplo da eleição’; ironicamente a conquista máxima do Homem e o pilar fundamental da Democracia.
Sabendo que geralmente se criam as condições para umas eleições justas, conscientes e imparciais e que o que conta é a ‘cifra final’, o que é que se passa e acontece com aquela figura que quer votar em minoria no Não? Sendo que as eleições se converteram em plebiscitos, mantendo a ilusão da liberdade de escolha, tratam-se de uma encenação, onde uma vez dissonante, uma voz é isolada e aniquilada, embora servindo para dar expressão à restante maioria apoiante do Estado, que se alimenta assim do Medo e do Terror dos indivíduos.
O Homem que cai nesta armadilha fá-lo porque está disposto a sacrificar-se pela sua opinião, pela liberdade. Encarando que se tratará de uma ínfima parte daqueles que querendo votar Não, não se abstiveram, nem se deixaram dominar pelo terror, serão apesar disso muito significativos. O que surge deste Não é a última possibilidade de expressão, é a negação do Deserto, da Dúvida, é o Desespero, e também o Desterro!
“Enfrentamo-nos aqui com uma verdadeira resistência, sem dúvida uma resistência que não conhece ainda a sua força, nem o modo como se há-de exercer.” [3]

2º Andamento – O Desterro; Resistir para nascer de novo


 

“Se é que existem, em épocas, talvez longas, de puro uso da violência, indivíduos que conservam a noção do direito, mesmo à custa de sacrifícios, então é aqui que temos de procurá-los.” [4]
Um Homem que tenha uma elevada ética, deve sempre dar a sua opinião assumindo todas as suas consequências, mesmo que tal signifique o extermínio desta elite. Dá-se assim o passo da floresta! É a passagem à resistência daquele que votou Não. Este, no entanto, não é ainda um Desterrado, tem antes de mais de afastar-se das maiorias, formando a sua opinião, e consolidando-a ganha um enorme poder face às minorias desqualificadas.
O seu primeiro desafio é o de ultrapassar o Medo. Fá-lo ao distinguir-se dos demais, ao fazer a sua fuga por herança ou talento inato, correndo riscos, resistindo e arquitectando uma nova concepção da liberdade, alicerçando-a nas raízes mais profundas e originais do ser humano. A vivência e a consciência plena da liberdade individual, e a sua busca interior, fornecem ao indivíduo a força para desfazer a teia do Terror e do Medo que parece inevitável.
“O lugar da liberdade é completamente diferente da mera oposição, diferente também daquele que a fuga lhe pode oferecer. Chamamos-lhe floresta. Nesse lugar há recursos diferentes do traçar um Não, que se coloca no círculo para isso previsto.” [5]
Chegando aqui, sabemos já que poderemos percorrer outro caminho. Esta elite que, não vende a sua opinião e consciência, prepara-se agora para combater por uma nova liberdade. Isto só é possível acontecer em épocas de crise, onde a ameaça é maior, onde o Ser Humano é abandonado à sua sorte, onde parece não haver saída.
Ernst Jünger traça assim o perfil da que para ele é uma das três maiores figuras da nossa época – o Desterrado; depois do Trabalhador e do Soldado Desconhecido.
O Trabalhador surgindo da catástrofe, está à altura dos acontecimentos, expande-se e penetra no Universo, de modo a o olhar com novos olhos, com uma nova focagem, dispondo de forças tamanhas, reinventa o mundo a partir de si e do seu esforço – trata-se de um ‘operário metafísico’. [6]
O Soldado Desconhecido é o anónimo herói, o bom espírito, o filho da terra, quem carrega o fardo dos horrores da guerra, aquele que estando na penumbra do esquecimento é invocado pelos povos, “…é um autêntico descendente da Cavalaria Ocidental” [7]
“Desterrado, por sua vez, chamamos àquele que, isolado pelo processo histórico, convertido num apátrida, se vê finalmente entregue ao extermínio. Esse poderia ser o destino de muitos, mesmo de todos – é preciso, por isso, acrescentar ainda uma outra determinação. Esta consiste em o Desterrado estar decidido à resistência e tencionar levar a cabo um combate talvez desesperado. Desterrado é, então, aquele que possui uma relação originária com a liberdade, que se exterioriza, de um ponto de vista epocal, na resistência que opõe ao automatismo e de que não tenciona tirar a sua consequência ética, o fatalismo.” [8]
Este Desterro traduz uma mudança de perspectiva; do niilismo, onde cresce a ilusão do engrandecimento do que se move à custa do que está na quietude, i.e., a potência técnica é apenas um vislumbre dos tesouros do ser.
Ao não abandonar o barco (Ser Temporal) e ir para a floresta (Ser Supra-temporal), o Desterrado dá o passo da floresta e manifesta a sua vontade de afirmação própria, por sua conta e risco, pensa por si, habitua-se à vida dura e age segundo a sua decisão. Resiste à expulsão, é o seu próprio guerreiro, juiz ou sacerdote. Com a aplicação deste exercício espiritual o Medo pode assim ser reduzido e dar-se passos significativos para a segurança.
“O passo da floresta cria no interior desta ordem o movimento, que a separa das formações zoológicas. Não é nem um acto liberal nem romântico, mas o espaço de manobra das pequenas elites, que sabem tanto o que a época lhes pede, como conhecem ainda outras exigências.” [9]
“O passo da floresta não deve ser compreendido como uma forma de anarquia dirigida contra o mundo das máquinas, embora a tentação seja por demais natural, sobretudo quando o esforço aponta ao mesmo tempo, para o restabelecimento da relação com o mito. O advento do mito não causa qualquer dúvida e está já iminente. Aliás, a ordem mítica sempre está presente e ascende à superfície, na hora favorável, como um tesouro. E, no entanto, enquanto princípio heterogéneo, ele surgirá precisamente do movimento supremo levado à sua maior intensificação. Movimento, neste sentido, é apenas o mecanismo, o grito do nascimento. Não regressamos ao mito, encontramo-lo de novo…” [10]
A floresta é o reino deste processo histórico, é porto, terra natal, paz e segurança, no interior de cada um de nós. Assim esta viagem perde o carácter ameaçador, quando o indivíduo toma consciência da força divina do seu ser.
A floresta é secreta, espaço íntimo, negro, de passagem descoberta por quem perde o Medo, onde a criança se sente perdida. Dominando o Medo, dá-se o primeiro passo para a morte e depois ultrapassamo-la, chegando-se à abundância da vida, vencendo o Terror, triunfando e nascendo de novo.
O Mestre Jünger escreve, em nossa opinião neste contexto um dos mais belos parágrafos de toda a literatura mundial:
“Eis o Jardim do Éden, eis as vinhas, os lírios, os grãos de trigo das parábolas cristãs. Eis o bosque das histórias de encantar com os seus lobos devoradores de homens, com as bruxas e os gigantes, mas também onde se encontra o bom caçador, os valados de rosas da Bela Adormecida, em cuja sombra o tempo pára. Eis as florestas germânicas e celtas, como o Bosque de Esmalte, no qual os heróis subjugam a morte, e, ainda o Jardim das Oliveiras.” [11]

3º Andamento – A Nova Ordem

“O veredicto do Desterrado reza assim: «Aqui e agora» – ele é o homem da acção livre e independente.” [12]
Aquele que não se satisfaz facilmente, que é inconformista e que busca sempre mais, aquele que trás consigo uma profunda inquietação, aquele que reconhece o seu grande sofrimento, aquele que duvida e que sofre, está agora à altura de responder ao Nada. Porque sabe que a questão fundamental a si feita é endereçada à sua substância. Só ele pode agora dominar o Tempo e expulsar o Nada.
A pequena massa de elite assume o compromisso da luta, com todas as suas consequências, sabe que do inimigo não terá qualquer tipo de complacência. A decisão é firme e forte, e isto requere coragem.
A Estratégia Conservadora de Jünger assenta na passagem do ‘meridiano zero’, ultrapassando os sistemas racionalistas e materialistas, implantando-se uma Nova Ordem.
O Desterrado deve ser audaz, não aceitar a lei dos poderosos, mas sim defender-se pelos meios do seu tempo, não se limitando apenas a alvos reais, abre caminhos mais altos em épocas e colectividades futuras e não se fica apenas pela conquista do seu reino de interioridade.
Só ao Desterrado cabe a balização dos limites da sua luta, não recorrerá a actos criminosos ou terroristas, age sim de forma ética, não por respeito às leis do Estado, mas sim pelo seu profundo respeito pelo que existe de mais nobre no Ser Humano.
Esta ‘Revolução’ é universal em solo, em língua, em cultura, em tempo. A sua arma será a resistência, a paciência, a audácia, a liberdade, a pureza do Ser Humano.
Dois valores são sagrados: a liberdade individual; e a propriedade, que em circunstância alguma será colectivizável. A sabedoria está no indivíduo e não na colectividade.
A batalha é travada no ‘mundo das coisas’, mas é no ‘mundo da linguagem’ que está a força desta elite. O ‘lugar da palavra é a floresta’, é lá que o Desterrado se alia e se funde ao pensador, ao teólogo e ao poeta. É por e com esta nova linguagem que se sai do deserto.
“No seu fundo primordial, a palavra já não é forma nem chave. Torna-se idêntica ao Ser. Torna-se poder da criação. E aí está a sua força imensa, que nunca se poderá converter em moeda. Aqui apenas têm lugar aproximações. A linguagem tece em favor do silêncio, como o oásis se consagra a uma fonte. E a poesia confirma que se conseguiu entrar nos jardins intemporais.  Disso vive então o Tempo.” [13]
Porque, termina Jünger no parágrafo seguinte: “Quem escava mais fundo, alcança em qualquer deserto a camada que conduz às fontes. E com a água sobe à superfície uma nova fertilidade.”

 

Filipe Miguel Dias Cardoso 
Penafiel / Zürich
Outubro de 2004 - Maio de 2005

 

[1] Devido ao nosso não domínio da língua germânica socorremo-nos da seguinte edição portuguesa para as citações neste artigo: Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang) [1951], Cotovia, Lisboa, 1995. Com tradução e posfácio de Maria Filomena Molder [ISBN 972-8028-53-9].
[2] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 9.
[3] Ernst Jünger. Obra cit., p. 19.
[4] Idem. Idem, p. 24.
[5] Idem. Idem, p. 38.
[6] O leitor pode aperceber-se com mais profundidade desta figura na obra de Ernst Jünger. Der Arbeiter. Herrshaft und Gestalt [1932], com uma excelente tradução para a língua portuguesa de Alexandre Franco de Sá, editada pela Hugin (2000), com um esclarecedor prefácio de Nuno Rogeiro [ISBN: 972-8310-78-1]
[7] Ernst Jünger. O passo da floresta (Der Waldgang), p. 28.
[8] Idem. Idem, p. 32.
[9] Idem. Idem, p. 23.
[10] Idem. Idem, p. 44/45.
[11] Idem. Idem, p. 52.
[12] Idem. Idem, p. 68.
[13] Idem. Idem, p. 97.
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Tuesday, January 23, 2007

NOTAS BIO-BIBLIOGRÁFICAS DE ERNEST JÜNGER

O ‘Velho Profeta’ alemão Ernst Jünger viveu demais (102 anos, nasceu em 29 de Março de 1895, em Heidelberg e faleceu a 17 de Fevereiro de 1998, em Wilflingen) para ser um conformado, nunca o foi em toda a sua vida. Nunca esteve do lado daqueles que vencem e escrevem a História. Foi um homem privado do direito à herança, um derrotado histórico na sua contemporaneidade.
E, apesar de tudo isto, não será fácil encontrar em toda a ‘Época Moderna’ um pensamento com tanta actualidade, clareza na análise, visão dos Tempos e do desenrolar dos acontecimentos históricos, e tão profunda inquietude na eterna procura do Ser Humano.
A vida deste pensador foi, para além de longa, muito profícua. Será novamente um exercício difícil, encontrar figura par em vivência e acontecimentos pessoais. Ernst Jünger foi ele próprio um exemplo de acção do seu pensamento e aquele a quem podemos sem enganos chamar de Sábio.


Notícia Biobibliográfica de Ernst Jünger
[seguindo predominantemente as cronologias que Julien Hervier anexa aos seus Entretiens avec Ernst Jünger, Gallimard, 1986), por Rafael Gomes Filipe – Tradução, prefácio e notas a Sobre as Falésias de Mármore (Auf Den Marmorklippen), 2ª Ed., Veja, Lisboa, p. 153/160; e a que surge no posfácio por António Carlos Carvalho em A Guerra como Experiência Interior (Der Kampf als inneres Erlebnis), Ed. Ulisseia, Lisboa, p. 119/124; bem como variadas consultas na World Wide Web.]

Nacionalismo Ingénuo


1895 – 29 Março, nascimento em Heidelberg. Pai Hanôveriano e farmacêutico (Ernst Jünger), mãe Francónia (Karoline Lampl). Filho mais velho de sete irmãos. Vive em Rehburg, próximo de Hannover. Aluno mediano (1901-1913) mas apaixonado pela literatura.
1913 – Foge de casa e alista-se na Legião Estrangeira Francesa, servindo no Norte de África em Oran e Sid-Bel-Abbés (Argélia).
1914 – Completa os estudos Secundários no Instituto Gildemeister de Hannover. Alista-se como voluntário integrando o 73º Regimento de Fuzileiros Prinz Albrecht von Preussen. Em Dezembro parte para a frente da Champagne.
1915 – Ferido em Les Éparges, regressa às trincheiras na região de Artois. Promovido a Alferes.
Jogos Africanos (Afrikanische Spiele), Ed. em 1936
1916 – Em Março, chefia uma patrulha na retirada alemã do Somme, tomando posições na linha Hindenburg, em Maio. Em Junho, combate tropas inglesas e indianas. Em Julho, avança para a Flandres, defendo-se da ofensiva inglesa em Ypres. Encontra o irmão Friedrich Georg nos combates em Langemarck. Em Setembro chefia uma patrulha de combate contra os franceses, ferido e condecorado.
1918 – Ataque a posições escocesas em Écoust, é ferido. Combate o avanço inglês em Puisieux-le-Mont. Em Agosto, desesperada contra-ofensiva em Cambrai, gravemente ferido continua a lutar.
Recebe a ‘Pour le Mérite’, em 22 de Dezembro no hospital. Trata-se da mais alta condecoração alemã para Oficiais subalternos, criada por Frederico II da Prússia, sendo nos últimos anos de vida o único titular vivo.

Anarquismo Prussiano



Tempestades de Aço (In Stahlgewittern), 1ª Ed. de autor (2.000 exemplares) em 1920. [Diário de guerra, com reedição em 1922 por Mittler, Berlim]
1919 – Fim da Guerra como Alferes do Exército alemão. Serviu como Oficial no Exército da República de Weimar, do fim da guerra até 1923, habitando em Hannover.

Tempestades de Aço (In Stahlgewittern), 1ª Ed. de autor (2.000 exemplares) em 1920. [Diário de guerra, com reedição em 1922 por Mittler, Berlim]
A Guerra como Experiência Interior (Der Kampf als inneres Erlebnis), 1922.
1923 – Fim da estada no Exército alemão. Inicia estudos em Ciências Naturais, sobretudo Zoologia na Universidade de Leipzig, e recebe lições de Filosofia de Hans Driesch e de Félix Krüger.

O Bosque 125 (Das Waldchen 125), 1924.

1925 – Prossegue estudos de Zoologia em Nápoles, interrompidos em Maio de 1926, para se dedicar por inteiro à escrita. Casa com Gretha von Jeinsen em 3 de Agosto. Vive em Leipzig, colabora em revistas de círculos de antigos combatentes (como Die Standarte).
Feuer und Blut (Fogo e sangue), 1925.

Nacional – Bolchevismo

1926 – Nascimento do filho Ernst a 1 de Maio.

1927
– Vive em Berlim. Actividade polemista político nos meios da Direita Nacionalista e também Nacional-Bolchevista (com Ernst Niekisch). Até 1932 escreve nas revistas Arminius, Der Vormarsch, Widerstand, Die Kommenden, etc. Conhecimento com Ernst Von Salomon, Otto Strasser, Bertolt Brecht, Arnolt Bronnen, Erich Müsam, Ernst Toller. Ligação estreita a: Carl Schmitt, Valeriu Marcu, Alfred Kubin e Ernst Rowohlt.

1929
– Viagens à Sicília e Baleares (1932); Dalmácia (1933); Noruega (1935); Brasil e Canárias (1936), visitante frequente a Paris.
1ª Parte de Coração Aventureiro (Das abenteuerliche Herz), 1929.

1930
– Inicia correspondência com Carl Schmitt e Heidegger.
O Trabalhador (Das Arbeiter) [queda do mundo burguês; ascensão da arquitectura totalitária convergente na figura do Trabalhador, mobilizando o mundo pela técnica], 1932.

1933
– Recusa a entrada na Academia Alemã de Letras, dominada pelos intelectuais Nacional – Socialistas, bem como o convite de um lugar no Reichstag. Abandona Berlim e muda-se para Goslar.

1934
– Protesto no Jornal oficioso do Partido NDSAP Völkischer Beobachter, que publicara um fragmento de Coração Aventureiro sem autorização. Nascimento do segundo filho Alexandre.
Folhas e Pedras (Blatter und Streine), 1934.
A Mobilização Total (Die Totale Mobilmachung), 1934.
Sobre a dor (Über dan Schmerz), 1934.

Guerreiro Inconformado

1935 – Viagens pela Noruega, Brasil, Canárias, Marrocos e Rodes.

1936
– Instala-se em Überlingen (Lago de Constança).
O Coração Aventuroso (Das abenteuerliche Herz), 1938.
1939 – Instala-se em Kirchhorst (Hannover). Novo envolvimento na Guerra, é chamado pelo exército e enviado para a frente Ocidental, como Capitão.
Sobre as Falésias de Mármore, Ed. em 1939. [narrativa mítica e visionária que descreve a destruição de um lugar de grande civilização por um ditador bárbaro]
1941 – Destacado para o Comando alemão em Paris. Vida mundana, encontros com escritores e artistas, museus, antiquários e livreiros (Braque, Céline, Cocteau, Gaston Gallimard, Giraudoux, Sacha Guitry, Jouhandeau, Léautaud, Montherlant, Morand, Paulhan e Picasso).
A Paz (Der Friede), 1941.

Jardins e Estradas (Garten und Strassen) [Diários parisienses de 1939-1940], 1942.

1942/43 – Visita a frente do Cáucaso, como inspector do exército.
1944 – Em Fevereiro o filho Ernst é preso por actividades de oposição ao regime e condenado a servir numa unidade de assalto da frente da Itália, sendo morto em Carrara, a 29 de Novembro.
Tem conhecimento da preparação embora não tendo participação no atentado falhado a Adolf Hitler em Stauffenberg (20 de Julho), é afastado do Exército e retira-se para Kirchhorst.

1945
– Perante o avanço dos Aliados, organiza a resistência local (Volkstum - Milícia territorial). No ‘processo de desnazificação’ da Alemanha torna-se injustamente um escritor banido.

Anarquista - Conservador



1948
– Instala-se em Ravensburg, perto do Lago Constância.
Diários (1939-1948) (Strahlungen), 1948
1949 – Encontra-se com Heidegger e colabora com o ensaio Passagem da linha (Über die Linie) no volume de comemoração dos 60 anos do Filósofo.
Experiências com drogas.
Drogas, Embriaguez e outros Temas (Annäherungen, Drogen und Rausch), Ed. em 1971.
1950 – Instala-se em Wilflingen (Suábia).
O Passo da Floresta (Der Waldgang), 1951.

1955
– Recebe os prémios literários de Bremem e de Goslar.
Abelhas de Vidro (Gläserne Bienen), 1957. [ficção científica sobre o poder da técnica]
1959 – Funda a revista Antaios, sendo seu co-editor juntamente com Mircea Elíade, até 1971.
O Muro do Tempo (An der Zeitmauer), 1959. [reflexão o Tempo e a História]

1960
– Morte da Mulher.
O Estado Universal (Der Wetstaat), 1960. [ensaio político]
1962 – Casa com Liselotte Lohrewr. Viagens ao Egipto, Sudão, Sinai, Áustria e Espanha.

1964
– Recebe o Immermann Prize. Viagens à Grécia e Noruega.

1965
– Conclui a publicação da 1ª edição das suas obras completas, em dez volumes. Faz cruzeiro pela Ásia Oriental.

1966
– Visita Portugal (Lisboa) e Angola.

1967
– Experiências Entomologistas.
Caçadores Subtis (Subtile Jagden), 1967. [meditação sobre as belezas da natureza]

1969
– Viagens por Marrocos, Canárias, Creta, Nice, Tunísia, Turquia, Sri Lanka, Djerba, Agadir, Libéria e Sicília. Dedica Volantes (Federballe) aos 80 anos de Heidegger.
Philémon e Baucis. A morte na civilização técnica e na civilização mítica (Philemon und Baucis. Der Tod inder technischen und in der mythischen welt), 1972.
A Fronda (Die Zwille), 1973.
Eumeswil, 1977.

Pensador Solitário, Pregador da Paz


1978 – Viagens a Malta, Avignon e Nice.

1979 – Viagens pela Libéria, Grécia e Paris.
Revela-se um forte apoiante da Europa Unida e um promotor dos direitos humanos. Recebe a Medalha da Paz da Cidade de Verdun.

1980 – Viagens pela Grécia, Singapura e Rodes.

1981 – Recebe a Medalha de Ouro da Humboldt Society.

Setenta Apaga-se (Siebzig verweht, [Diários], 1981.

1982 – Prémio Goethe da cidade de Frankfurt. Borges visita-o.

1983 – Visita de Alberto Morávia. Viagem a Portugal.

O Problema de Aladino (Aladins Problem), 1983.

1984 – Ao lado do Presidente François Mitterrand e do Chanceler Helmut Kohl, homenageia as vítimas das duas Grandes Guerras, em Verdun, aquando das festas em honra da reconciliação franco-alemã. Em Paris, o Senado convida-o a condecorar um veterano da Grande Guerra.

O Autor e a Escrita (Autor und Autorschaft), 1984. [análise da nossa civilização]

1985 – Condecorado com a Grã-cruz de Mérito da R.F.A. É criado o prémio Ernst Jünger de Entomologia. Recebe visitas de Mitterrand e Kohl.

Um Encontro Perigoso (Eine Gefährliche Begegnung); Contos Escolhidos (Augewählte Erzählungen), 1985.


Ficcionista Visionário

1986 – Viagens à Malásia, Samatra e Cantão de Tessin. Recebe a Bayerischer Maximilianorden das artes e das ciências, e o Prémio Mediterrâneo.

1987 – Recebe o Prémio Tevere.

1988 – Participa nas comemorações, em Paris, do 25º aniversário do acordo franco-alemão.

Sob o Signo de Halley (Zweimal Halley), 1987.

1989 – Feito Doutor honoris causa da Universidade do País Basco (Bilbau). Visita Madrid e as Ilhas Maurícias.

1990 – Visitado por Felipe Gonzalez. Recebe o Prémio de Arte da Alta Suávia. Viagens a Lascaux, Toulouse, Montpellier, Paris, Suiça e Creta.

As Tesouras (Die schere); Saltos no Tempo (Zeitsprunge), 1990.
1993 – O Presidente da França Mitterrand recebe-o como hóspede no Eliseu. Recebe o Grande Prémio da Arte da Bienal de Veneza. Suicídio do filho Alexander.

1995 – O seu centenário de vida é assinalado internacionalmente.

1996 – Instala-se por 4 semanas no Escorial e é feito Doutor honoris causa da Universidade de Madrid.

1998 – Falece a 17 de Fevereiro, com quase 103 anos de idade em Wilflingen.



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