O ‘Velho Profeta’ alemão Ernst Jünger viveu demais (102 anos, nasceu em 29 de Março de 1895, em Heidelberg e faleceu a 17 de Fevereiro de 1998, em Wilflingen) para ser um conformado, nunca o foi em toda a sua vida. Nunca esteve do lado daqueles que vencem e escrevem a História. Foi um homem privado do direito à herança, um derrotado histórico na sua contemporaneidade.
E, apesar de tudo isto, não será fácil encontrar em toda a ‘Época Moderna’ um pensamento com tanta actualidade, clareza na análise, visão dos Tempos e do desenrolar dos acontecimentos históricos, e tão profunda inquietude na eterna procura do Ser Humano.
A vida deste pensador foi, para além de longa, muito profícua. Será novamente um exercício difícil, encontrar figura par em vivência e acontecimentos pessoais. Ernst Jünger foi ele próprio um exemplo de acção do seu pensamento e aquele a quem podemos sem enganos chamar de Sábio.
Notícia Biobibliográfica de Ernst Jünger
[seguindo predominantemente as cronologias que Julien Hervier anexa aos seus Entretiens avec Ernst Jünger, Gallimard, 1986), por Rafael Gomes Filipe – Tradução, prefácio e notas a Sobre as Falésias de Mármore (Auf Den Marmorklippen), 2ª Ed., Veja, Lisboa, p. 153/160; e a que surge no posfácio por António Carlos Carvalho em A Guerra como Experiência Interior (Der Kampf als inneres Erlebnis), Ed. Ulisseia, Lisboa, p. 119/124; bem como variadas consultas na World Wide Web.]
Nacionalismo Ingénuo

1895 – 29 Março, nascimento em Heidelberg. Pai Hanôveriano e farmacêutico (Ernst Jünger), mãe Francónia (Karoline Lampl). Filho mais velho de sete irmãos. Vive em Rehburg, próximo de Hannover. Aluno mediano (1901-1913) mas apaixonado pela literatura.
1913 – Foge de casa e alista-se na Legião Estrangeira Francesa, servindo no Norte de África em Oran e Sid-Bel-Abbés (Argélia).
1914 – Completa os estudos Secundários no Instituto Gildemeister de Hannover. Alista-se como voluntário integrando o 73º Regimento de Fuzileiros Prinz Albrecht von Preussen. Em Dezembro parte para a frente da Champagne.
1915 – Ferido em Les Éparges, regressa às trincheiras na região de Artois. Promovido a Alferes.
Jogos Africanos (Afrikanische Spiele), Ed. em 1936
1916 – Em Março, chefia uma patrulha na retirada alemã do Somme, tomando posições na linha Hindenburg, em Maio. Em Junho, combate tropas inglesas e indianas. Em Julho, avança para a Flandres, defendo-se da ofensiva inglesa em Ypres. Encontra o irmão Friedrich Georg nos combates em Langemarck. Em Setembro chefia uma patrulha de combate contra os franceses, ferido e condecorado.
1918 – Ataque a posições escocesas em Écoust, é ferido. Combate o avanço inglês em Puisieux-le-Mont. Em Agosto, desesperada contra-ofensiva em Cambrai, gravemente ferido continua a lutar.
Recebe a ‘Pour le Mérite’, em 22 de Dezembro no hospital. Trata-se da mais alta condecoração alemã para Oficiais subalternos, criada por Frederico II da Prússia, sendo nos últimos anos de vida o único titular vivo.
Anarquismo Prussiano

Tempestades de Aço (In Stahlgewittern), 1ª Ed. de autor (2.000 exemplares) em 1920. [Diário de guerra, com reedição em 1922 por Mittler, Berlim]
1919 – Fim da Guerra como Alferes do Exército alemão. Serviu como Oficial no Exército da República de Weimar, do fim da guerra até 1923, habitando em Hannover.
Tempestades de Aço (In Stahlgewittern), 1ª Ed. de autor (2.000 exemplares) em 1920. [Diário de guerra, com reedição em 1922 por Mittler, Berlim]
A Guerra como Experiência Interior (Der Kampf als inneres Erlebnis), 1922.
1923 – Fim da estada no Exército alemão. Inicia estudos em Ciências Naturais, sobretudo Zoologia na Universidade de Leipzig, e recebe lições de Filosofia de Hans Driesch e de Félix Krüger.
O Bosque 125 (Das Waldchen 125), 1924.
1925 – Prossegue estudos de Zoologia em Nápoles, interrompidos em Maio de 1926, para se dedicar por inteiro à escrita. Casa com Gretha von Jeinsen em 3 de Agosto. Vive em Leipzig, colabora em revistas de círculos de antigos combatentes (como Die Standarte).
Feuer und Blut (Fogo e sangue), 1925.
Nacional – Bolchevismo
1926 – Nascimento do filho Ernst a 1 de Maio.
1927 – Vive em Berlim. Actividade polemista político nos meios da Direita Nacionalista e também Nacional-Bolchevista (com Ernst Niekisch). Até 1932 escreve nas revistas Arminius, Der Vormarsch, Widerstand, Die Kommenden, etc. Conhecimento com Ernst Von Salomon, Otto Strasser, Bertolt Brecht, Arnolt Bronnen, Erich Müsam, Ernst Toller. Ligação estreita a: Carl Schmitt, Valeriu Marcu, Alfred Kubin e Ernst Rowohlt.
1929 – Viagens à Sicília e Baleares (1932); Dalmácia (1933); Noruega (1935); Brasil e Canárias (1936), visitante frequente a Paris.
1ª Parte de Coração Aventureiro (Das abenteuerliche Herz), 1929.
1930 – Inicia correspondência com Carl Schmitt e Heidegger.
O Trabalhador (Das Arbeiter) [queda do mundo burguês; ascensão da arquitectura totalitária convergente na figura do Trabalhador, mobilizando o mundo pela técnica], 1932.
1933 – Recusa a entrada na Academia Alemã de Letras, dominada pelos intelectuais Nacional – Socialistas, bem como o convite de um lugar no Reichstag. Abandona Berlim e muda-se para Goslar.
1934 – Protesto no Jornal oficioso do Partido NDSAP Völkischer Beobachter, que publicara um fragmento de Coração Aventureiro sem autorização. Nascimento do segundo filho Alexandre.
Folhas e Pedras (Blatter und Streine), 1934.
A Mobilização Total (Die Totale Mobilmachung), 1934.
Sobre a dor (Über dan Schmerz), 1934.
Guerreiro Inconformado

1935 – Viagens pela Noruega, Brasil, Canárias, Marrocos e Rodes.
1936 – Instala-se em Überlingen (Lago de Constança).
O Coração Aventuroso (Das abenteuerliche Herz), 1938.
1939 – Instala-se em Kirchhorst (Hannover). Novo envolvimento na Guerra, é chamado pelo exército e enviado para a frente Ocidental, como Capitão.
Sobre as Falésias de Mármore, Ed. em 1939. [narrativa mítica e visionária que descreve a destruição de um lugar de grande civilização por um ditador bárbaro]
1941 – Destacado para o Comando alemão em Paris. Vida mundana, encontros com escritores e artistas, museus, antiquários e livreiros (Braque, Céline, Cocteau, Gaston Gallimard, Giraudoux, Sacha Guitry, Jouhandeau, Léautaud, Montherlant, Morand, Paulhan e Picasso).
A Paz (Der Friede), 1941.
Jardins e Estradas (Garten und Strassen) [Diários parisienses de 1939-1940], 1942.
1942/43 – Visita a frente do Cáucaso, como inspector do exército.
1944 – Em Fevereiro o filho Ernst é preso por actividades de oposição ao regime e condenado a servir numa unidade de assalto da frente da Itália, sendo morto em Carrara, a 29 de Novembro.
Tem conhecimento da preparação embora não tendo participação no atentado falhado a Adolf Hitler em Stauffenberg (20 de Julho), é afastado do Exército e retira-se para Kirchhorst.
1945 – Perante o avanço dos Aliados, organiza a resistência local (Volkstum - Milícia territorial). No ‘processo de desnazificação’ da Alemanha torna-se injustamente um escritor banido.
Anarquista - Conservador

1948 – Instala-se em Ravensburg, perto do Lago Constância.
Diários (1939-1948) (Strahlungen), 1948
1949 – Encontra-se com Heidegger e colabora com o ensaio Passagem da linha (Über die Linie) no volume de comemoração dos 60 anos do Filósofo.
Experiências com drogas.
Drogas, Embriaguez e outros Temas (Annäherungen, Drogen und Rausch), Ed. em 1971.
1950 – Instala-se em Wilflingen (Suábia).
O Passo da Floresta (Der Waldgang), 1951.
1955 – Recebe os prémios literários de Bremem e de Goslar.
Abelhas de Vidro (Gläserne Bienen), 1957. [ficção científica sobre o poder da técnica]
1959 – Funda a revista Antaios, sendo seu co-editor juntamente com Mircea Elíade, até 1971.
O Muro do Tempo (An der Zeitmauer), 1959. [reflexão o Tempo e a História]
1960 – Morte da Mulher.
O Estado Universal (Der Wetstaat), 1960. [ensaio político]
1962 – Casa com Liselotte Lohrewr. Viagens ao Egipto, Sudão, Sinai, Áustria e Espanha.
1964 – Recebe o Immermann Prize. Viagens à Grécia e Noruega.
1965 – Conclui a publicação da 1ª edição das suas obras completas, em dez volumes. Faz cruzeiro pela Ásia Oriental.
1966 – Visita Portugal (Lisboa) e Angola.
1967 – Experiências Entomologistas.
Caçadores Subtis (Subtile Jagden), 1967. [meditação sobre as belezas da natureza]
1969 – Viagens por Marrocos, Canárias, Creta, Nice, Tunísia, Turquia, Sri Lanka, Djerba, Agadir, Libéria e Sicília. Dedica Volantes (Federballe) aos 80 anos de Heidegger.
Philémon e Baucis. A morte na civilização técnica e na civilização mítica (Philemon und Baucis. Der Tod inder technischen und in der mythischen welt), 1972.
A Fronda (Die Zwille), 1973.
Eumeswil, 1977.
Pensador
Solitário, Pregador da Paz

1978 – Viagens a Malta, Avignon e Nice.
1979 – Viagens pela Libéria, Grécia e Paris.
Revela-se um forte apoiante da Europa Unida e um promotor dos direitos humanos. Recebe a Medalha da Paz da Cidade de Verdun.
1980 – Viagens pela Grécia, Singapura e Rodes.
1981 – Recebe a Medalha de Ouro da Humboldt Society.
Setenta Apaga-se (Siebzig verweht, [Diários], 1981.
1982 – Prémio Goethe da cidade de Frankfurt. Borges visita-o.
1983 – Visita de Alberto Morávia. Viagem a Portugal.
O Problema de Aladino (Aladins Problem), 1983.
1984 – Ao lado do Presidente François Mitterrand e do Chanceler Helmut Kohl, homenageia as vítimas das duas Grandes Guerras, em Verdun, aquando das festas em honra da reconciliação franco-alemã. Em Paris, o Senado convida-o a condecorar um veterano da Grande Guerra.
O Autor e a Escrita (Autor und Autorschaft), 1984. [análise da nossa civilização]
1985 – Condecorado com a Grã-cruz de Mérito da R.F.A. É criado o prémio Ernst Jünger de Entomologia. Recebe visitas de Mitterrand e Kohl.
Um Encontro Perigoso (Eine Gefährliche Begegnung); Contos Escolhidos (Augewählte Erzählungen), 1985.
Ficcionista Visionário

1986 – Viagens à Malásia, Samatra e Cantão de Tessin. Recebe a Bayerischer Maximilianorden das artes e das ciências, e o Prémio Mediterrâneo.
1987 – Recebe o Prémio Tevere.
1988 – Participa nas comemorações, em Paris, do 25º aniversário do acordo franco-alemão.
Sob o Signo de Halley (Zweimal Halley), 1987.
1989 – Feito Doutor honoris causa da Universidade do País Basco (Bilbau). Visita Madrid e as Ilhas Maurícias.
1990 – Visitado por Felipe Gonzalez. Recebe o Prémio de Arte da Alta Suávia. Viagens a Lascaux, Toulouse, Montpellier, Paris, Suiça e Creta.
As Tesouras (Die schere); Saltos no Tempo (Zeitsprunge), 1990.
1993 – O Presidente da França Mitterrand recebe-o como hóspede no Eliseu. Recebe o Grande Prémio da Arte da Bienal de Veneza. Suicídio do filho Alexander.
1995 – O seu centenário de vida é assinalado internacionalmente.
1996 – Instala-se por 4 semanas no Escorial e é feito Doutor honoris causa da Universidade de Madrid.
1998 – Falece a 17 de Fevereiro, com quase 103 anos de idade em Wilflingen.